
A vida, em sua dança imprevisível, continua a nos presentear
com seus compassos mais desafiadores, mesmo enquanto reescrevemos nossos
próprios enredos. E nesta partitura que sigo criando, o silêncio que se fez
após Fernando ainda reverbera, mas de outras formas, com novas notas.
Lembro-me bem daquele 28 de outubro de 2025. Véspera do
primeiro aniversário da partida de Fernando. Um dia em que eu esperava ser de
memória e reflexão sobre a ausência, transformou-se, de forma abrupta e
inesperada, no marco de uma nova e profunda jornada. Foi quando a primeira
suspeita sussurrou a palavra “câncer” em meu peritônio. Uma coincidência que me
faz pensar na teia invisível que conecta nossos dias, onde perdas e inícios se
entrelaçam, exigindo-nos ressignificar e avançar, por mais densos que sejam os
capítulos.
Depois de semanas de consultas em Macapá e em São Paulo, de
exames e de longas conversas com meu oncologista, a decisão sobre o local do
tratamento se impôs. E, para o espanto e a preocupação compreensível de alguns,
minha escolha foi clara: Macapá. Meus filhos, na pureza de seu amor,
vislumbravam em São Paulo as “melhores possibilidades” técnicas. Mas para mim,
a melhor possibilidade está aqui, onde meu coração encontra o lar. É aqui que
minhas raízes se aprofundam, onde meus filhos e amigos queridos são âncoras e
velas. A paz que me proporciona a familiaridade de minha casa, o conforto do
meu espaço, o abraço certo no momento exato, não tem preço, nem substituto. É
este o ambiente que nutre meu bem-estar, a base inabalável da minha força para
o que virá. Minha decisão de ficar aqui é uma extensão daquele princípio de
Confúcio que me tocou: a fidelidade a si mesma.
A jornada, como já compreendi, não é um trilho, mas uma
trilha. E nesta trilha, o próximo marco é neste próximo 04 de fevereiro de 2026.
Nesse dia, iniciarei a primeira de uma série das infusões de quimioterapia. É
mais uma etapa, um novo degrau, que encaro com a clareza de quem sabe que cada
passo é essencial, cada fase tem seu próprio ritmo e sua própria exigência. Não
é o fim, mas o começo de uma nova cadência, um novo trecho a ser percorrido.
Não há espaço para ilusões sobre a gravidade da neoplasia
maligna que agora habita em mim. A compreensão é plena, a consciência é nítida.
Mas junto a essa clareza, floresce uma determinação inabalável. Estou me
preparando para enfrentar cada fase do tratamento, com a disciplina de quem
sabe a importância de seguir as orientações médicas, de respeitar os limites do
corpo e de abraçar a resiliência da alma. É uma batalha, sim, mas uma batalha
para a qual me sinto preparada, munida de fé, de acolhimento e de uma vontade
imensa de viver.
É essencial, para mim, manter a atitude de quem está pronta
para o combate, e isso se traduz em disposição, paciência e uma flexibilidade
contínua. A vida nos ensina a dançar conforme a música, e agora a melodia pede
um ritmo diferente, que exige adaptação, mas nunca a perda da alegria de estar
viva. Essa jornada, embora desafiadora, também é uma oportunidade para
reafirmar a fidelidade a mim mesma, para cultivar a ordem interior e para me
nutrir da solitude sem solidão.
E nesta reescrita de vida, a presença de Fernando em mim é um
pilar inabalável. Seu legado, suas palavras e a história que construímos juntos
são a base que fortalece minha alma. É com essa força, com a clareza que ele me
ensinou a buscar e com o amor que continua a me guiar, que sigo reescrevendo a vida,
com uma nova tinta, uma nova perspectiva, mas com a mesma essência de quem
escolhe viver plenamente, mesmo diante do inusitado.
2 comentários:
Sônia é a mais perfeita tradução do que é permanecer doce mesmo quando o fruto de repente é amargo
Grande
Grande
Grande!
Amiga, Qmque a fé e o amor te fortaleçam para enfrentar essa jornada.
Postar um comentário