quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Macapá, Meu Amor: As Primeiras Vozes da Celebração (Na Prosa e no Verso de Fernando Canto) Por Sônia Canto

Arquivo pessoal Fernando Canto.

 Macapá! Minha querida e vibrante Macapá! Hoje, no seu aniversário de 268 anos, mergulho nos escritos de Fernando e sinto uma emoção profunda. Uma necessidade urgente de dar voz, mais uma vez, ao imenso amor que ele dedicava a esta cidade. É como se, ao revisitar seus "textículos" – pedaços de prosa e poesia que ele deixou –, eu pudesse oferecer uma nova roupagem a essa paixão, revelando a história das suas primeiras celebrações através dos olhos e do coração dele. A história organizada de suas comemorações é mais recente do que sua própria idade, é verdade, mas através das palavras de Fernando Canto, ela ganha uma riqueza e uma emoção singulares.

“Lembro-me bem, como se fosse ontem, que a primeira vez que nos dedicamos a festejar o aniversário de Macapá de forma oficial foi em 1982. Você completava, então, 224 anos de fundação. Uma solenidade simples, é verdade, mas carregada de um profundo significado, na Praça da Bandeira. Uma iniciativa conjunta da SEPLAN/DETUR e da Prefeitura de Macapá, que, sob a gestão de um governador carioca (Annibal Barcellos), um prefeito maranhense (Murilo Pinheiro), e com um paraense (Antero Duarte Dias Pires Lopes) e um pernambucano (Flávio Zírpolli) à frente da SEPLAN/DETUR, demonstrava a força da união por esta terra.

O evento, transmitido pela Rádio Difusora, teve como ponto alto a palestra do ilustre e saudoso historiador, professor Estácio Vidal. Ele, com a maestria que lhe era peculiar, traçava a saga dos nossos colonizadores e as origens do nosso povo – um povo forjado pelos açorianos que aqui chegaram em 1750, por ordem do Marquês de Pombal. Beber de suas fontes era mergulhar na alma de Macapá.

Foi em 1983 que a SEPLAN, persistente, imprimiu e distribuiu um cartaz que carregava um título e uma história que sempre me fascinaram, com um texto de minha autoria nominado ADELANTADO DE NUEVA ANDALUZIA. Em 1984, o mesmo espírito embalou um folder do Governo do Estado, marcando o seu 226º aniversário de fundação. E em 1988, tive a alegria de ver essas minhas reflexões novamente publicadas no Jornal do Amapá e A Província do Pará, sob o título "Macapá Cheia de Prosa e Verso". Anos mais tarde, em 1998, por ocasião dos 240 anos de fundação da vila, revisitei essas memórias com uma nova perspectiva, aprofundando o amor pela "Cidade Lançante".

Permitam-me, então, compartilhar com vocês a essência do que o meu coração ditou para Macapá, como se estivéssemos em uma daquelas conversas com um velho amigo:

Adelantado de Nueva Andaluzia" e a Cidade Lançante

Macapá cheia de prosa e verso, disponível em: https://fernando-canto.blogspot.com/2010/02/macapa-cheia-de-prosa-e-verso.html

"Tu sabias, mano, que Adelantado de Nueva Andaluzia foi o primeiro nome oficial dado às terras do nosso Amapá? Em 1544 o Rei da Espanha, Carlos V, concedeu a Francisco Orellana este lugar, mas o grande navegador não chegou a assumi-lo por ter naufragado quando para cá se dirigia. Desde Pinzon que os espanhóis e os portugueses disputavam acirradamente nossas terras em virtude do Tratado de Tordesilhas. Depois vieram os holandeses, os ingleses e os franceses.

Esta baía, esta grande gamela de líquidas contorções, guarda segredos profundos. Não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de 1632, um dia claro, de verão amazônico. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá adiante cogitavam que dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.

Na margem esquerda deste rio imensurável, uma floresta úmida abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a mestra Dominique, esse era um povo de origem Aruaque, aliado dos holandeses, franceses e irlandeses. Por isso, foi atacado impiedosamente por uma expedição do desbravador Pedro Teixeira em 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá conta que após a façanha do capitão português, esse povo procurou abrigo no Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.

Depois portugueses, índios e negros, nossos avós, garantiram nossos destinos conquistando definitivamente a foz do rio Amazonas rechaçando com atos de heroísmo os flibusteiros e marinheiros europeus. E nós, como povo, temos nossa História. Brava História.

Por isso, compadre, que um dia, na antiga Província dos Tucujus, chegou o Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado para fundar neste local a então Vila de São José de Macapá. Era o dia 4 de Fevereiro de 1758. Um dia de festa, embora eu me pergunte: por que ergueram um pelourinho? – “Símbolo das franquias municipais”, dirão os doutos. Mas quantos homens não castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador, porque estes aproveitaram para fugir durante a solenidade... Um tralhoto viu e contou ao Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia de festa, sim, aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a vila de São José de Macapá. Daí em diante esta cidade cresceu e se fez bonita.

Esta baía guarda estranhos segredos: uns são contados em língua morta, quando o hálito da madrugada sopra. Os outros pairam nos escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.

O estuário deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5 quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 milhões de metros cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24 horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera da sustentação das mãos trabalhadoras.

Macapá, velho pomar das macabas, carrega dentro de si a similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva refrescante e pela espuma das lançantes marés. Macaba, Maca-paba: gordura, óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por glebas de esperança.

E em maio de 1944 Macapá foi transformada em capital do Território Federal do Amapá, criado um ano antes. Foram chegando os pioneiros. Cada qual com seu trabalho e sua coragem. Saga e valentia. Só mesmo homens e mulheres dispostos a trabalhar poderiam modificar aquele quadro triste de doença, analfabetismo e miséria. Nossos pais e avós, todos juntos, reuniram suas forças para trabalhar por esta terra. O sentimento de amor e de progresso era superior ao esmorecimento e ao pessimismo.

Tudo foi modificando-se. Chegou o primeiro carro e o primeiro avião. O primeiro campo de aviação foi construído e foi para o ar o primeiro programa na velha e querida Rádio Difusora de Macapá, uma das pioneiras do Brasil. Instalou-se a primeira usina de luz, o primeiro hospital. Égua! O Caixa de Cebola foi o nosso primeiro ônibus. Depois veio o Gavião Malvado... Tudo tinha nome ou apelido. Havia a “Turma do Buraco” que arborizava Macapá...

Em Macapá faziam sátira com a música “Cidade Maravilhosa” e cantavam assim: “Cidade Maravilhosa/Cheia de catabil...” Pois sim, essas pessoas que a cantavam, assim o faziam porque não tinham a visão do futuro. Macapá tinha o horizonte aberto para receber as mãos dos homens trabalhadores que chegavam de todas as paragens. E juntos, com os que aqui já se encontravam - mineiros, cariocas, nordestinos, gaúchos - todos trabalhavam e pensavam em progresso. E como na lenda da cigarra e da formiga uns cantavam, mas a maioria trabalhava.

E esta cidade, mano, foi crescendo ao som do Marabaixo que a preta velha cantava na Quarta-Feira da Murta pelas ruas do Laguinho e da antiga Favela.

Passei pelo lírio roxo

Cinco folhinha apanhei

Cinco sentido qu’eu tinha

Todos os cinco lá deixei.

Todo um sentimento poético abraçava a cidade. E Macapá estava linda sob o sol. Aliás, a luz sempre simbolizou a vida. O sol beija o rio na maior parte do ano. E ao nascer todos os dias ele traz para nós a esperança de dias melhores e mais mansos.

Antiga terra da maleita e da febre terçã. Terra do “já teve” já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos, manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti. Embora batizada com nome de santo - especialíssimo no panteão católico - teus habitantes não ficam isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das ruas outrora bem cuidadas.

Sabe, mano, enquanto soubermos discernir o bom do ruim faremos deste lugar a razão de nossa felicidade, pois ela permanecerá acesa nos nossos lares. Devemos ainda aprender a amar nosso chão e nosso céu de sonhos. Temos tudo para ir adiante, assim como nosso primeiro nome, lembras? Adelante, adiante, para a frente. É importante sermos otimistas e ter os pés neste solo. Batalhar e trabalhar para fazer desta terra um mundo de coisas boas. Sim, um mundo moldado com as mãos e com a respeitável inteligência de nossos irmãos.

Tu já fizeste uma viagem, não foi? Sem querer tu pensaste em alguns detalhes e fostes e voltaste. Assim como tu, nossos dirigentes também pensam, planejam e realizam obras que nossos filhos vão falar com orgulho e seus corações também falarão através de um grande sorriso em suas bocas. É preciso continuar planejando para atender aos anseios de nossos irmãos carentes. É preciso combater os malefícios e pensar no bem-estar geral. É preciso, compadre, é preciso trabalhar. E nós estamos trabalhando pra viver e se for preciso até morrer por este lugar.

Adiante, adelante, adelantado. Bem ali, no mais tardar das esperanças tu construirás o teu tempo. Nem que seja sobre a folha que cairá de uma árvore sob o impacto da chuva. Olha, mano, deves ter a certeza de que o rio corre para um único destino: o mar.

E nesta linda cidade paira a luz sobre nossas cabeças. Então, iluminados, devemos homenageá-la. Já viste o rio amazonas deitado no seu leito. Já viste a imponência da Fortaleza de São José. Já viste também os namorados apreciando o rio parir uma lua gordinha lá no Quebra-Mar. Então tu sabes, mano, como é linda e hospitaleira a nossa cidade, né? Pois é. O Marco Zero do Equador passa aqui pertinho, separando o mundo em dois hemisférios. Já notaste que vem tanta gente aqui pra visitá-lo? Tem uns turistas louros, morenos, pretos e amarelos que só tiram fotografias com as pernas abertas dizendo que estão no meio do mundo. Sabes por quê? Ora, Macapá é importante...

Mas tu sabes o que significa a palavra Macapá? Não?! Macapá é uma variação de Maca-paba, que quer dizer, na língua dos índios, estância das macabas, o lugar de abundância de bacaba. Bacaba é uma fruta boa e gostosa, né? Apesar de gordurosa ela alimenta muito a gente e o seu vinho ainda tem aparência de café com leite. É assim como o açaí, o nosso petróleo comestível que a gente compra um litro na amassadeira do Ramiro e dá de pau na hora do almoço. Temos tanta fruta que tu nem imaginas... Temos cupuaçú, graviola, bacuri, jenipapo, uxi, pupunha, camapu, ingá, chega a dar água na boca.

Mas, compadre, Macapá é uma linda morena. Vês que de manhã aquele solzão bate no Amazonas que chega até encandear a gente. Macapá é uma cidade segura. Aqui o rio nunca transbordou. E quando o sol vai embora, mano, nós ficamos com a certeza de que ele voltará. E assim como nós acreditamos nisso, nós acreditamos no futuro e no trabalho de nossos irmãos.

Na essência da poesia à Macapá, o que encontramos é a alma do povo. O povo que sonha, ama e constrói. É para ele que planejamos. É para ele que pensamos em novos estímulos à expansão da alma coletiva. Neste poema, cada dia reescrevemos um verso apaixonado. Uma declaração de amor à nossa cidade, que mesmo se tornando uma capital diferente daqueles dias de "Adelantado", não aceitou perder sua alma, nem endurecer seu coração.”

Essa arrumação de história, prosa e poesia do escritor Fernando Canto, como bem notou o editor do Jornal do Amapá, em 1988 e que também ilustrou cartazes e folhetos por iniciativa do então secretário de Planejamento, Antero Dias Lopes, é um legado. Ao celebrar os 268 anos da nossa Macapá, reativar essas palavras é dar a milhares de leitores a oportunidade de enxergarem a cidade por um lado diferente, saboroso, e sentir a força do amor de Fernando por esta terra.

Espero que esta compilação integral e amorosa ressoe profundamente, celebrando Macapá e a memória de Fernando Canto de uma forma vibrante e completa. Ele ficaria muito feliz em ver suas palavras reunidas e honradas. Eu sei. Eu vi. Eu conto.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A Dança dos Novos Compassos - Por Sonia Canto

 

 

 A vida, em sua dança imprevisível, continua a nos presentear com seus compassos mais desafiadores, mesmo enquanto reescrevemos nossos próprios enredos. E nesta partitura que sigo criando, o silêncio que se fez após Fernando ainda reverbera, mas de outras formas, com novas notas.

 Lembro-me bem daquele 28 de outubro de 2025. Véspera do primeiro aniversário da partida de Fernando. Um dia em que eu esperava ser de memória e reflexão sobre a ausência, transformou-se, de forma abrupta e inesperada, no marco de uma nova e profunda jornada. Foi quando a primeira suspeita sussurrou a palavra “câncer” em meu peritônio. Uma coincidência que me faz pensar na teia invisível que conecta nossos dias, onde perdas e inícios se entrelaçam, exigindo-nos ressignificar e avançar, por mais densos que sejam os capítulos.

 Depois de semanas de consultas em Macapá e em São Paulo, de exames e de longas conversas com meu oncologista, a decisão sobre o local do tratamento se impôs. E, para o espanto e a preocupação compreensível de alguns, minha escolha foi clara: Macapá. Meus filhos, na pureza de seu amor, vislumbravam em São Paulo as “melhores possibilidades” técnicas. Mas para mim, a melhor possibilidade está aqui, onde meu coração encontra o lar. É aqui que minhas raízes se aprofundam, onde meus filhos e amigos queridos são âncoras e velas. A paz que me proporciona a familiaridade de minha casa, o conforto do meu espaço, o abraço certo no momento exato, não tem preço, nem substituto. É este o ambiente que nutre meu bem-estar, a base inabalável da minha força para o que virá. Minha decisão de ficar aqui é uma extensão daquele princípio de Confúcio que me tocou: a fidelidade a si mesma.

 A jornada, como já compreendi, não é um trilho, mas uma trilha. E nesta trilha, o próximo marco é neste próximo 04 de fevereiro de 2026. Nesse dia, iniciarei a primeira de uma série das infusões de quimioterapia. É mais uma etapa, um novo degrau, que encaro com a clareza de quem sabe que cada passo é essencial, cada fase tem seu próprio ritmo e sua própria exigência. Não é o fim, mas o começo de uma nova cadência, um novo trecho a ser percorrido. 

Não há espaço para ilusões sobre a gravidade da neoplasia maligna que agora habita em mim. A compreensão é plena, a consciência é nítida. Mas junto a essa clareza, floresce uma determinação inabalável. Estou me preparando para enfrentar cada fase do tratamento, com a disciplina de quem sabe a importância de seguir as orientações médicas, de respeitar os limites do corpo e de abraçar a resiliência da alma. É uma batalha, sim, mas uma batalha para a qual me sinto preparada, munida de fé, de acolhimento e de uma vontade imensa de viver.

 É essencial, para mim, manter a atitude de quem está pronta para o combate, e isso se traduz em disposição, paciência e uma flexibilidade contínua. A vida nos ensina a dançar conforme a música, e agora a melodia pede um ritmo diferente, que exige adaptação, mas nunca a perda da alegria de estar viva. Essa jornada, embora desafiadora, também é uma oportunidade para reafirmar a fidelidade a mim mesma, para cultivar a ordem interior e para me nutrir da solitude sem solidão.

 E nesta reescrita de vida, a presença de Fernando em mim é um pilar inabalável. Seu legado, suas palavras e a história que construímos juntos são a base que fortalece minha alma. É com essa força, com a clareza que ele me ensinou a buscar e com o amor que continua a me guiar, que sigo reescrevendo a vida, com uma nova tinta, uma nova perspectiva, mas com a mesma essência de quem escolhe viver plenamente, mesmo diante do inusitado.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Eterna Chuva da Saudade



Por Sonia Canto

Hoje, a contagem implacável marca 427 dias. 427 auroras sem a sua presença, Fernando, e cada uma delas é um lembrete vívido da sua ausência que se alastra como uma sombra, por vezes densa como os nimbos de Macapá. A saudade, essa faca que golpeia o rastro de cada lembrança, me encontra em silêncio, tentando decifrar o indizível que você, com sua pena tão particular, transformava em beleza.

É nesse labirinto de emoções que releio seus textos, buscando não apenas as palavras que me moldaram, mas a própria essência de quem você foi. Em "A Mulher e a Dádiva da Chuva", sinto a força de um amor que abarca paisagens e sentimentos. Sua mulher-chuva, um dom, um cenário de transformação, um perfume que se entranha – assim como você se entranhou em minha vida, uma presença que era "absolutamente chama, sem o consumir do fogo". Hoje, a chama arde de outra forma, um calor nostálgico que busca acender a centelha da criação que se esvai sob o peso dos compromissos, tentando manter o equilíbrio entre a razão que exige ação e a emoção que clama por luto. Minhas energias se esgotam nessa paisagem interna, onde as pétalas caídas nos jardins são as memórias que insistem em florescer, mesmo na ausência.

Lembro-me de "Tu a Minha Espera", e sinto a ironia da busca por um porto que, agora, se revela um lugar de memória e não de reencontro físico. A açucena que você via no palco dos sonhos, dourada de luz e efeitos especiais, é agora a flor que brota na paisagem da saudade, uma beleza que dói e que me faz sentir a eternidade da espera. Meu coração, como o seu, bate duplamente – por ter tido a dádiva da sua presença, e pela desordem que a paixão pela sua memória provoca. Eu me fiz de peixe para o seu anzol, e agora nado em águas que carregam o eco dos seus versos, buscando um novo rumo, uma nova forma de te ter perto, mesmo que seja apenas na ressonância dos seus escritos.

E então, "A Morte e o Espanto". Ah, Fernando, você que desvendava os mitos, que explorava a tensão entre a vida e a morte, como eu lido agora com a sua própria partida? A serpente que troca de pele para a juventude é um contraste cruel com a finalidade da sua ausência. Você nos ensinou sobre a alma que se eleva aos campos de luz, sobre a poesia que reside no "ato findo", na sombra que "volta para o corpo em forma de alma". Mas a dor de compartilhar "nossas dores com a perda de amigos, de ídolos e de nossas referências pessoais" é um abismo que ecoa suas próprias palavras, e é nesse abismo que me sinto, entre o espanto da finitude e a busca por algum tipo de imortalidade em sua obra.

Sua influência não foi um mero sussurro, mas o estuário de loucura que você amava, a generosidade das águas que moravam em você, o esplendor das estações que existiam em seu ser. A sua voz, seu olhar sociólogo que desnudava as complexidades da existência, e seu coração de poeta que celebrava a vida em toda a sua crueza e beleza, são o alicerce que busco para reerguer a minha escrita.

A cada linha sua, sinto que a "sombra perdida na floresta que volta para o corpo em forma de alma" é a sua, que me visita e me inspira a seguir, mesmo que o esforço para equilibrar razão e emoção me esgote. A saudade é um oceano, e suas palavras são as ilhas onde busco refúgio, na esperança de um dia transformar a dor da perda na "poesia daquilo que parte, que renasce como um caminho para uma nova aventura da vida". É a sua dádiva, Fernando, que ainda chove em mim, lavando a alma e alimentando a esperança de que a escrita, mais uma vez, possa brilhar, como o sol que você esperava "para todas as mulheres que trabalham, sofrem e amam nesta terra salpicada de luz do equador". Seu legado vive, e nele encontro a força para continuar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Três meses sem Fernando Canto


Já são noventa dias de ausência física, mas presença de Fernando em mim se fortalece dia após dia.

É um misto de ternura e completude que torna meus dias mais amenos, menos solitários.

Fernando ao me mostrar um texto recém-criado (não lembro qual), eu fiquei extasiada e disse a ele que queria entrar no seu cérebro pra ver como aquelas palavras se completavam. Ele me disse que eu já estava nele assim como ele em mim.

Hoje, este diálogo faz todo sentido na minha cabeça e no meu coração.

Reservo horas dos meus dias a organizar tudo o que está nos nossos computadores e encontro textos antigos com conteúdos muito atuais. Letras de canções destinadas a vários cantores. Livros inéditos com poemas, crônicas, prosas poéticas, etc. etc. etc.

Hoje resolvi ouvir algumas canções que ele fez pra mim. A que bateu forte no meu coração foi Lume, gravada pelo querido Zé Miguel. Estes versos, “Vem amor / faz de mim um veio mineral áureo cantante / Capaz de partilhar com o mundo / Nada além do que a vontade de fazer mudar a vida / Enquanto já estás e és refém do meu cantar / Até esse milênio atravessar a gente e a gente atravessar a vida”

Não consegui fazer de Fernando um veio mineral áureo cantante, mas posso partilhar com o mundo sua obra seus projetos, sua vida vivida tão intensamente.

É meu propósito.

Sônia Canto.


A Travessia da Alma e a Canção do Chão Ausente


 


Por Sônia Canto

 

Pequena canção de terra.

Composição: Fernando Canto

Música incluída no CD ‘Na maré dos tempos’, gravado em 1995, em comemoração aos 20 anos de carreira musical do Grupo Pilão.

 

É hora das horas

É tempo de vento

É hora de encontro

É tempo de ir

Já não tem brinquedo

Já não tem palavra

E o sol brilha pouco

Longe do equador

Ai, dor

De saber agora

Que me levo embora

Me faço de brisa

Mas tenho que ir

 

 Há melodias que nascem da saudade, e há saudades que se convertem em canções. No cerne de uma partitura tão delicada quanto "Pequena canção de terra", pulsa a própria vida, não apenas de um poeta, mas de uma família inteira. Uma canção que, ao ser revisitada, rompe diques e faz as lágrimas descerem, torrencialmente, revelando a crueza e a beleza de uma escolha talhada no amor.

Macapá, chão fértil de raízes, berço do homem amazônico, Fernando. Em suas veias, o Amapá corria como um rio caudaloso, alimentando a poesia que brotava em "Os Periquitos Comem Mangas na Avenida" e o encanto do "Roteiro Poético". Ali, onde a família se aninhou no Laguinho, ele teceu os primeiros fios de sua arte, um artista já prolífico antes mesmo de o vento da mudança soprar.

Mas o destino, por vezes, desenha curvas inesperadas, e a saúde de uma filha, a pequena Oriana, tornou-se a bússola implacável. "É hora das horas, é tempo de vento, é hora de encontro, é tempo de ir." A canção, escrita anos depois, já habitava o ar daquele outono de 1989. Não era uma partida fútil, mas uma travessia sagrada, onde duas almas se encontraram na promessa inabalável: "cuidaríamos um do outro em qualquer circunstância." Que pacto de amor indestrutível, selado não sob juras vazias, mas sob o peso de malas e a dor de um adeus temporário.

Belém, então, tornou-se o novo palco para essa existência multifacetada. A dor da separação, o "Ai, dor, de saber agora que me levo embora", expressa no verso, era real. A alma se fazia de brisa, tentando suavizar a dureza do "tenho que ir". Mas, no exílio voluntário, a força desse amor transformou o que poderia ser um deserto em um jardim. Foi em terras paraenses que a semente da "Pequena canção de terra" germinou no coração de Fernando, um lamento doce pela distância do equador, do chão amado. E foi ali, na peleja e na superação, que ele "deslanchou".

Sua mente acadêmica, forjada em escolas públicas, encontrou na arte o mais puro canal. Os livros, as palavras, as crônicas, os contos ganharam vida. A glória do 1º Lugar no I Concurso de Contos das Universidades do Norte, em 1993, atesta que a distância aguçou sua pena. O Compaq 386-DX, símbolo da modernidade e do progresso, testemunhava a efervescência de novas ideias, de mundos sendo construídos, de patrimônios edificados, não só em tijolo e cimento, mas em sonhos. "A Água Benta e o Diabo", lançado em 1998, veio sacramentar a vitalidade de sua escrita em pleno "exílio".

E a música? Ah, a música! O Grupo Pilão, um porto seguro, acolheu e deu voz à sua alma de compositor. O CD "Na maré dos tempos", em 1995, não foi apenas uma comemoração de vinte anos de carreira, mas um farol que mostrava que, mesmo longe, Fernando Canto era mestre em traduzir sentimentos em acordes. A canção que hoje me inunda, "Pequena canção de terra", está ali, gravada, um testamento perene daquele período. Os festivais, os prêmios de Melhor Letra, Música Mais Popular, Melhor Arranjo – "Farras & Cimitarras", "Assim como Raul" – ecoavam a resiliência e a capacidade de fazer florescer em qualquer solo.

Dez anos depois, com os filhos quase adultos, o círculo se fechou. Nosso retorno a Macapá não foi apenas geográfico, mas um abraço apertado ao passado e ao futuro, uma reafirmação da promessa feita sob o peso da dor. Dissemos um ao outro: Nada, ninguém nos separará a não ser a morte de um de nós. E assim foi. Uma declaração de amor, de cumplicidade que transcende o tempo, que resiste às marés e aos ventos da vida.

Fernando nos deixou em 2024, um ciclo completo de 70 anos, mas a canção que brotou daquela travessia ainda pulsa. As lágrimas de agora, não são apenas de saudade, mas de uma profunda compreensão. Elas são a prova viva de que a arte, quando entrelaçada à vida com tanta honestidade e amor, torna-se eterna. A "Pequena canção de terra" não é apenas uma melodia; é a crônica de um amor que venceu a dor da partida, a distância do equador, e a tudo transformou em uma ode à existência, ao pertencimento e à força indômita de duas almas que, juntas, construíram um legado de beleza e resiliência.

E assim, a melodia continua a soar, no vento, no encontro, na alma.




29nov2025 30 dias sem Fernando.

 

Arquivo pessoal.

Como um rio que passa, eu passo por aqui.

(Fernando Canto e Bi Trindade, in Encantaria)

Hoje, 29/11/2024, atrevo-me a escrever sobre a transição de meu amor, Fernando Canto, para o inimaginável.

Sim, inimaginável, pois ninguém tem certeza absoluta do que ocorre na sequência do desvestir-se do corpo material, só posso discorrer sobre o recorte de nossa trajetória, durante 37 anos, 10 meses, 10 dias e algumas horas que estivemos juntos.

Desde o anúncio de sua partida, tenho me esmerado em cumprir as partes burocráticas que o evento morte requer. Este episódio é impactante e arrasador, assim. procurei desempenhar os rituais das exéquias com a certeza inabalável de que meu coração estava à frente para fazer o que fosse necessário, digno e compatível com a leveza, serenidade e simplicidade com que o Fernando pautou toda a sua vida.

Ultrapassada esta fase, me recolho em mim para reencontrar meus sentimentos.

Um misto de ternura, saudade, dor, perplexidade, carinho, enlevo, tristeza e amor, muito amor perpassa em mim. Dias em que razão e emoção se embricam para solidificar o viver.

Não desabo, só deságuo, às vezes, quando me dou conta de que não tenho mais o OlhAR de Fernando. (grafia dele)

Ah, o olhar de Fernando dizia tanto... Vivo amortecida sem seu olhar feliz, irônico, carinhoso, aborrecido, preocupado, debochado, amoroso. Penso que Fernando diria: Não se preocupe o amor-tece-dor.

Assim estou neste momento, tecendo dores nas ondas do nosso amor.

Aproveito para agradecer publicamente aos familiares e amigos que trouxeram afagos, carinho, cuidado e respeito nestes dias tão dolorosos.

Sou só gratidão.

Encerro com este recorte do conto “Cornucópia de desejos”, onde sinto um pouco o que Fernando via em mim:

“Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra. Por isso eu sei que te amo.”

Bodas de carvalho - Escrito em 19/12/2025

Nosso Casamento, 19/12/1986. Foto: Juvenal Canto

Hoje, 19/12/2024, Fernando e eu comemoraríamos 38 anos de casados. Seriam nossas bodas de carvalho. Diz o Google que as bodas de carvalho representam a sabedoria do casal que é usada para enfrentar as adversidades e os impasses da vida, eivadas de companheirismo, cumplicidade e parceria. Quis o destino que não completássemos os 38 anos de vida em comum, mas permitiu 37 anos, 10 dias e algumas horas. Sou só gratidão. Nesta trajetória fomos companheiros, cúmplices e parceiros, então, apesar da ausência física, estamos sim cumprindo nossas bodas de carvalho, pois ele vive em meu coração, no meu pensamento, na minha vida.

Em 1990, Fernando escreveu um livro chamado “Inserções num vazio equidistante”, e o dedicou a mim. Nunca foi publicado. A dedicatória: “À Sônia, este sumo. Seiva de golpe fundo.”

Ali está escrito:

TÉRMITA

Meu amor por ti

é teimoso

é roedor

é terno

Em cada 19 de dezembro, durante os anos que estivemos juntos, celebramos sem festas familiares ou com amigos. Nossa celebração tinha como testemunha o  Rio Amazonas, caudaloso, perene e nobre, onde nos dizíamos sobre nossa vida juntos, o que pretendíamos no ano vindouro. Sem alarde, momentos nossos, sem presentes, sem flor, apenas nosso amor se reinventando. Ali, nos prometíamos mundos e fundos e voltávamos pra casa mais juntos, mais serenos, mais cúmplices.

Eu, em muitos momentos, disse a ele, te amo além da vida. Ele me dizia, isto é profundo, mas só significa sempre. Eu te amo, sempre.

No mesmo livro, sobre as equidistâncias das inserções, diz:

Invernal e largo

como a noite

o teu vazio

ora germina

ora fenece

            instrumental

            cho ven do flor

Registros:

Eu: 19/12/2015:

Ah! O que dizer? Sempre juntos, amor... rumo a qualquer lugar, em qualquer circunstância... Colhemos estrelas no nosso caminho e as dispersamos em forma de bem-aventurança a todos quanto partilham conosco a alegria de viver o nosso amor. Sempre juntos, sempre um.

Ele: 19/12/2022:

Há 36 anos eu e Sonia Mont'Alverne Canto iniciamos nossa vida de casados, compartilhando o que surgiu durante esse tempo. A cerimônia foi na igreja ⛪️ de São Benedito. Nossos padrinhos foram Nazare Pacheco, Sérgio Aruana Elarrat, Beto Pacheco e Minha irmã Savina Canto, os dois últimos de saudosa memória. O padre foi Paulo Lepre e a Lúcia Uchôa Uchôa tocou magnificamente seu teclado. Obrigado, amor, por todos esses anos de convivência. Te amo. Sempre.

Eu aqui, hoje, amando Fernando Canto, além da vida e sempre.