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| Arquivo pessoal Fernando Canto. |
Macapá! Minha querida e vibrante Macapá! Hoje, no seu aniversário de 268 anos, mergulho nos escritos de Fernando e sinto uma emoção profunda. Uma necessidade urgente de dar voz, mais uma vez, ao imenso amor que ele dedicava a esta cidade. É como se, ao revisitar seus "textículos" – pedaços de prosa e poesia que ele deixou –, eu pudesse oferecer uma nova roupagem a essa paixão, revelando a história das suas primeiras celebrações através dos olhos e do coração dele. A história organizada de suas comemorações é mais recente do que sua própria idade, é verdade, mas através das palavras de Fernando Canto, ela ganha uma riqueza e uma emoção singulares.
“Lembro-me bem, como se fosse ontem, que a primeira vez que
nos dedicamos a festejar o aniversário de Macapá de forma oficial foi em 1982.
Você completava, então, 224 anos de fundação. Uma solenidade simples, é
verdade, mas carregada de um profundo significado, na Praça da Bandeira. Uma
iniciativa conjunta da SEPLAN/DETUR e da Prefeitura de Macapá, que, sob a
gestão de um governador carioca (Annibal Barcellos), um prefeito maranhense
(Murilo Pinheiro), e com um paraense (Antero Duarte Dias Pires Lopes) e um
pernambucano (Flávio Zírpolli) à frente da SEPLAN/DETUR, demonstrava a força da
união por esta terra.
O evento, transmitido pela Rádio Difusora, teve como ponto alto a palestra do ilustre e saudoso historiador, professor Estácio Vidal. Ele, com a maestria que lhe era peculiar, traçava a saga dos nossos colonizadores e as origens do nosso povo – um povo forjado pelos açorianos que aqui chegaram em 1750, por ordem do Marquês de Pombal. Beber de suas fontes era mergulhar na alma de Macapá.
Foi em 1983 que a SEPLAN, persistente, imprimiu e distribuiu um cartaz que carregava um título e uma história que sempre me fascinaram, com um texto de minha autoria nominado ADELANTADO DE NUEVA ANDALUZIA. Em 1984, o mesmo espírito embalou um folder do Governo do Estado, marcando o seu 226º aniversário de fundação. E em 1988, tive a alegria de ver essas minhas reflexões novamente publicadas no Jornal do Amapá e A Província do Pará, sob o título "Macapá Cheia de Prosa e Verso". Anos mais tarde, em 1998, por ocasião dos 240 anos de fundação da vila, revisitei essas memórias com uma nova perspectiva, aprofundando o amor pela "Cidade Lançante".
Permitam-me, então, compartilhar com vocês a essência do que o meu coração ditou para Macapá, como se estivéssemos em uma daquelas conversas
com um velho amigo:
Adelantado de Nueva Andaluzia" e a Cidade Lançante
Macapá cheia de prosa e verso, disponível em: https://fernando-canto.blogspot.com/2010/02/macapa-cheia-de-prosa-e-verso.html
"Tu sabias, mano, que Adelantado de Nueva Andaluzia foi o primeiro nome oficial dado às terras do nosso Amapá? Em 1544 o Rei da
Espanha, Carlos V, concedeu a Francisco Orellana este lugar, mas o grande
navegador não chegou a assumi-lo por ter naufragado quando para cá se dirigia.
Desde Pinzon que os espanhóis e os portugueses disputavam acirradamente nossas
terras em virtude do Tratado de Tordesilhas. Depois vieram os holandeses, os
ingleses e os franceses.
Esta baía, esta grande gamela de líquidas contorções, guarda
segredos profundos. Não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey
que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de
1632, um dia claro, de verão amazônico. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá
adiante cogitavam que dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.
Na margem esquerda deste rio imensurável, uma floresta úmida
abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os
portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a
mestra Dominique, esse era um povo de origem Aruaque, aliado dos holandeses,
franceses e irlandeses. Por isso, foi atacado impiedosamente por uma expedição
do desbravador Pedro Teixeira em 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá
conta que após a façanha do capitão português, esse povo procurou abrigo no
Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e
pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha
sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse
pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase
imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.
Depois portugueses, índios e negros, nossos avós, garantiram
nossos destinos conquistando definitivamente a foz do rio Amazonas rechaçando
com atos de heroísmo os flibusteiros e marinheiros europeus. E nós, como povo,
temos nossa História. Brava História.
Por isso, compadre, que um dia, na antiga Província dos
Tucujus, chegou o Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado para fundar
neste local a então Vila de São José de Macapá. Era o dia 4 de Fevereiro de
1758. Um dia de festa, embora eu me pergunte: por que ergueram um pelourinho? –
“Símbolo das franquias municipais”, dirão os doutos. Mas quantos homens não
castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador, porque estes
aproveitaram para fugir durante a solenidade... Um tralhoto viu e contou ao
Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira
Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia
pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o
rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia
de festa, sim, aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a
vila de São José de Macapá. Daí em diante esta cidade cresceu e se fez bonita.
Esta baía guarda estranhos segredos: uns são contados em
língua morta, quando o hálito da madrugada sopra. Os outros pairam nos
escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.
O estuário deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5
quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 milhões de metros
cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24
horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São
Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz
está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro
e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera
da sustentação das mãos trabalhadoras.
Macapá, velho pomar das macabas, carrega dentro de si a
similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por
ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva
refrescante e pela espuma das lançantes marés. Macaba, Maca-paba: gordura,
óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a
sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por
glebas de esperança.
E em maio de 1944 Macapá foi transformada em capital do
Território Federal do Amapá, criado um ano antes. Foram chegando os pioneiros.
Cada qual com seu trabalho e sua coragem. Saga e valentia. Só mesmo homens e
mulheres dispostos a trabalhar poderiam modificar aquele quadro triste de
doença, analfabetismo e miséria. Nossos pais e avós, todos juntos, reuniram
suas forças para trabalhar por esta terra. O sentimento de amor e de progresso
era superior ao esmorecimento e ao pessimismo.
Tudo foi modificando-se. Chegou o primeiro carro e o primeiro
avião. O primeiro campo de aviação foi construído e foi para o ar o primeiro
programa na velha e querida Rádio Difusora de Macapá, uma das pioneiras do
Brasil. Instalou-se a primeira usina de luz, o primeiro hospital. Égua! O Caixa
de Cebola foi o nosso primeiro ônibus. Depois veio o Gavião Malvado... Tudo
tinha nome ou apelido. Havia a “Turma do Buraco” que arborizava Macapá...
Em Macapá faziam sátira com a música “Cidade Maravilhosa” e
cantavam assim: “Cidade Maravilhosa/Cheia de catabil...” Pois sim, essas
pessoas que a cantavam, assim o faziam porque não tinham a visão do futuro.
Macapá tinha o horizonte aberto para receber as mãos dos homens trabalhadores
que chegavam de todas as paragens. E juntos, com os que aqui já se encontravam
- mineiros, cariocas, nordestinos, gaúchos - todos trabalhavam e pensavam em
progresso. E como na lenda da cigarra e da formiga uns cantavam, mas a maioria
trabalhava.
E esta cidade, mano, foi crescendo ao som do Marabaixo que a
preta velha cantava na Quarta-Feira da Murta pelas ruas do Laguinho e da antiga
Favela.
Passei pelo lírio roxo
Cinco folhinha apanhei
Cinco sentido qu’eu tinha
Todos os cinco lá deixei.
Todo um sentimento poético abraçava a cidade. E Macapá estava
linda sob o sol. Aliás, a luz sempre simbolizou a vida. O sol beija o rio na
maior parte do ano. E ao nascer todos os dias ele traz para nós a esperança de
dias melhores e mais mansos.
Antiga terra da maleita e da febre terçã. Terra do “já teve”
já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos,
manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus
verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo
assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti. Embora batizada com nome
de santo - especialíssimo no panteão católico - teus habitantes não ficam
isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das
ruas outrora bem cuidadas.
Sabe, mano, enquanto soubermos discernir o bom do ruim
faremos deste lugar a razão de nossa felicidade, pois ela permanecerá acesa nos
nossos lares. Devemos ainda aprender a amar nosso chão e nosso céu de sonhos.
Temos tudo para ir adiante, assim como nosso primeiro nome, lembras? Adelante,
adiante, para a frente. É importante sermos otimistas e ter os pés neste solo.
Batalhar e trabalhar para fazer desta terra um mundo de coisas boas. Sim, um
mundo moldado com as mãos e com a respeitável inteligência de nossos irmãos.
Tu já fizeste uma viagem, não foi? Sem querer tu pensaste em
alguns detalhes e fostes e voltaste. Assim como tu, nossos dirigentes também
pensam, planejam e realizam obras que nossos filhos vão falar com orgulho e
seus corações também falarão através de um grande sorriso em suas bocas. É
preciso continuar planejando para atender aos anseios de nossos irmãos
carentes. É preciso combater os malefícios e pensar no bem-estar geral. É
preciso, compadre, é preciso trabalhar. E nós estamos trabalhando pra viver e
se for preciso até morrer por este lugar.
Adiante, adelante, adelantado. Bem ali, no mais tardar das
esperanças tu construirás o teu tempo. Nem que seja sobre a folha que cairá de
uma árvore sob o impacto da chuva. Olha, mano, deves ter a certeza de que o rio
corre para um único destino: o mar.
E nesta linda cidade paira a luz sobre nossas cabeças. Então,
iluminados, devemos homenageá-la. Já viste o rio amazonas deitado no seu leito.
Já viste a imponência da Fortaleza de São José. Já viste também os namorados
apreciando o rio parir uma lua gordinha lá no Quebra-Mar. Então tu sabes, mano,
como é linda e hospitaleira a nossa cidade, né? Pois é. O Marco Zero do Equador
passa aqui pertinho, separando o mundo em dois hemisférios. Já notaste que vem
tanta gente aqui pra visitá-lo? Tem uns turistas louros, morenos, pretos e
amarelos que só tiram fotografias com as pernas abertas dizendo que estão no
meio do mundo. Sabes por quê? Ora, Macapá é importante...
Mas tu sabes o que significa a palavra Macapá? Não?! Macapá é
uma variação de Maca-paba, que quer dizer, na língua dos índios, estância das
macabas, o lugar de abundância de bacaba. Bacaba é uma fruta boa e gostosa, né?
Apesar de gordurosa ela alimenta muito a gente e o seu vinho ainda tem
aparência de café com leite. É assim como o açaí, o nosso petróleo comestível
que a gente compra um litro na amassadeira do Ramiro e dá de pau na hora do
almoço. Temos tanta fruta que tu nem imaginas... Temos cupuaçú, graviola,
bacuri, jenipapo, uxi, pupunha, camapu, ingá, chega a dar água na boca.
Mas, compadre, Macapá é uma linda morena. Vês que de manhã aquele solzão bate no Amazonas que chega até encandear a gente. Macapá é uma cidade segura. Aqui o rio nunca transbordou. E quando o sol vai embora, mano, nós ficamos com a certeza de que ele voltará. E assim como nós acreditamos nisso, nós acreditamos no futuro e no trabalho de nossos irmãos.
Na essência da poesia à Macapá, o que encontramos é a alma do
povo. O povo que sonha, ama e constrói. É para ele que planejamos. É para ele
que pensamos em novos estímulos à expansão da alma coletiva. Neste poema, cada
dia reescrevemos um verso apaixonado. Uma declaração de amor à nossa cidade,
que mesmo se tornando uma capital diferente daqueles dias de
"Adelantado", não aceitou perder sua alma, nem endurecer seu coração.”
Essa arrumação de história, prosa e poesia do escritor
Fernando Canto, como bem notou o editor do Jornal do Amapá, em 1988 e que
também ilustrou cartazes e folhetos por iniciativa do então secretário de
Planejamento, Antero Dias Lopes, é um legado. Ao celebrar os 268 anos da nossa
Macapá, reativar essas palavras é dar a milhares de leitores a oportunidade de
enxergarem a cidade por um lado diferente, saboroso, e sentir a força do amor
de Fernando por esta terra.
Espero que esta compilação integral e amorosa ressoe
profundamente, celebrando Macapá e a memória de Fernando Canto de uma forma vibrante
e completa. Ele ficaria muito feliz em ver suas palavras reunidas e honradas. Eu sei. Eu vi. Eu conto.



