quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Macapá, Meu Amor: As Primeiras Vozes da Celebração (Na Prosa e no Verso de Fernando Canto) Por Sônia Canto

Arquivo pessoal Fernando Canto.

 Macapá! Minha querida e vibrante Macapá! Hoje, no seu aniversário de 268 anos, mergulho nos escritos de Fernando e sinto uma emoção profunda. Uma necessidade urgente de dar voz, mais uma vez, ao imenso amor que ele dedicava a esta cidade. É como se, ao revisitar seus "textículos" – pedaços de prosa e poesia que ele deixou –, eu pudesse oferecer uma nova roupagem a essa paixão, revelando a história das suas primeiras celebrações através dos olhos e do coração dele. A história organizada de suas comemorações é mais recente do que sua própria idade, é verdade, mas através das palavras de Fernando Canto, ela ganha uma riqueza e uma emoção singulares.

“Lembro-me bem, como se fosse ontem, que a primeira vez que nos dedicamos a festejar o aniversário de Macapá de forma oficial foi em 1982. Você completava, então, 224 anos de fundação. Uma solenidade simples, é verdade, mas carregada de um profundo significado, na Praça da Bandeira. Uma iniciativa conjunta da SEPLAN/DETUR e da Prefeitura de Macapá, que, sob a gestão de um governador carioca (Annibal Barcellos), um prefeito maranhense (Murilo Pinheiro), e com um paraense (Antero Duarte Dias Pires Lopes) e um pernambucano (Flávio Zírpolli) à frente da SEPLAN/DETUR, demonstrava a força da união por esta terra.

O evento, transmitido pela Rádio Difusora, teve como ponto alto a palestra do ilustre e saudoso historiador, professor Estácio Vidal. Ele, com a maestria que lhe era peculiar, traçava a saga dos nossos colonizadores e as origens do nosso povo – um povo forjado pelos açorianos que aqui chegaram em 1750, por ordem do Marquês de Pombal. Beber de suas fontes era mergulhar na alma de Macapá.

Foi em 1983 que a SEPLAN, persistente, imprimiu e distribuiu um cartaz que carregava um título e uma história que sempre me fascinaram, com um texto de minha autoria nominado ADELANTADO DE NUEVA ANDALUZIA. Em 1984, o mesmo espírito embalou um folder do Governo do Estado, marcando o seu 226º aniversário de fundação. E em 1988, tive a alegria de ver essas minhas reflexões novamente publicadas no Jornal do Amapá e A Província do Pará, sob o título "Macapá Cheia de Prosa e Verso". Anos mais tarde, em 1998, por ocasião dos 240 anos de fundação da vila, revisitei essas memórias com uma nova perspectiva, aprofundando o amor pela "Cidade Lançante".

Permitam-me, então, compartilhar com vocês a essência do que o meu coração ditou para Macapá, como se estivéssemos em uma daquelas conversas com um velho amigo:

Adelantado de Nueva Andaluzia" e a Cidade Lançante

Macapá cheia de prosa e verso, disponível em: https://fernando-canto.blogspot.com/2010/02/macapa-cheia-de-prosa-e-verso.html

"Tu sabias, mano, que Adelantado de Nueva Andaluzia foi o primeiro nome oficial dado às terras do nosso Amapá? Em 1544 o Rei da Espanha, Carlos V, concedeu a Francisco Orellana este lugar, mas o grande navegador não chegou a assumi-lo por ter naufragado quando para cá se dirigia. Desde Pinzon que os espanhóis e os portugueses disputavam acirradamente nossas terras em virtude do Tratado de Tordesilhas. Depois vieram os holandeses, os ingleses e os franceses.

Esta baía, esta grande gamela de líquidas contorções, guarda segredos profundos. Não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de 1632, um dia claro, de verão amazônico. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá adiante cogitavam que dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.

Na margem esquerda deste rio imensurável, uma floresta úmida abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a mestra Dominique, esse era um povo de origem Aruaque, aliado dos holandeses, franceses e irlandeses. Por isso, foi atacado impiedosamente por uma expedição do desbravador Pedro Teixeira em 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá conta que após a façanha do capitão português, esse povo procurou abrigo no Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.

Depois portugueses, índios e negros, nossos avós, garantiram nossos destinos conquistando definitivamente a foz do rio Amazonas rechaçando com atos de heroísmo os flibusteiros e marinheiros europeus. E nós, como povo, temos nossa História. Brava História.

Por isso, compadre, que um dia, na antiga Província dos Tucujus, chegou o Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado para fundar neste local a então Vila de São José de Macapá. Era o dia 4 de Fevereiro de 1758. Um dia de festa, embora eu me pergunte: por que ergueram um pelourinho? – “Símbolo das franquias municipais”, dirão os doutos. Mas quantos homens não castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador, porque estes aproveitaram para fugir durante a solenidade... Um tralhoto viu e contou ao Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia de festa, sim, aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a vila de São José de Macapá. Daí em diante esta cidade cresceu e se fez bonita.

Esta baía guarda estranhos segredos: uns são contados em língua morta, quando o hálito da madrugada sopra. Os outros pairam nos escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.

O estuário deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5 quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 milhões de metros cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24 horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera da sustentação das mãos trabalhadoras.

Macapá, velho pomar das macabas, carrega dentro de si a similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva refrescante e pela espuma das lançantes marés. Macaba, Maca-paba: gordura, óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por glebas de esperança.

E em maio de 1944 Macapá foi transformada em capital do Território Federal do Amapá, criado um ano antes. Foram chegando os pioneiros. Cada qual com seu trabalho e sua coragem. Saga e valentia. Só mesmo homens e mulheres dispostos a trabalhar poderiam modificar aquele quadro triste de doença, analfabetismo e miséria. Nossos pais e avós, todos juntos, reuniram suas forças para trabalhar por esta terra. O sentimento de amor e de progresso era superior ao esmorecimento e ao pessimismo.

Tudo foi modificando-se. Chegou o primeiro carro e o primeiro avião. O primeiro campo de aviação foi construído e foi para o ar o primeiro programa na velha e querida Rádio Difusora de Macapá, uma das pioneiras do Brasil. Instalou-se a primeira usina de luz, o primeiro hospital. Égua! O Caixa de Cebola foi o nosso primeiro ônibus. Depois veio o Gavião Malvado... Tudo tinha nome ou apelido. Havia a “Turma do Buraco” que arborizava Macapá...

Em Macapá faziam sátira com a música “Cidade Maravilhosa” e cantavam assim: “Cidade Maravilhosa/Cheia de catabil...” Pois sim, essas pessoas que a cantavam, assim o faziam porque não tinham a visão do futuro. Macapá tinha o horizonte aberto para receber as mãos dos homens trabalhadores que chegavam de todas as paragens. E juntos, com os que aqui já se encontravam - mineiros, cariocas, nordestinos, gaúchos - todos trabalhavam e pensavam em progresso. E como na lenda da cigarra e da formiga uns cantavam, mas a maioria trabalhava.

E esta cidade, mano, foi crescendo ao som do Marabaixo que a preta velha cantava na Quarta-Feira da Murta pelas ruas do Laguinho e da antiga Favela.

Passei pelo lírio roxo

Cinco folhinha apanhei

Cinco sentido qu’eu tinha

Todos os cinco lá deixei.

Todo um sentimento poético abraçava a cidade. E Macapá estava linda sob o sol. Aliás, a luz sempre simbolizou a vida. O sol beija o rio na maior parte do ano. E ao nascer todos os dias ele traz para nós a esperança de dias melhores e mais mansos.

Antiga terra da maleita e da febre terçã. Terra do “já teve” já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos, manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti. Embora batizada com nome de santo - especialíssimo no panteão católico - teus habitantes não ficam isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das ruas outrora bem cuidadas.

Sabe, mano, enquanto soubermos discernir o bom do ruim faremos deste lugar a razão de nossa felicidade, pois ela permanecerá acesa nos nossos lares. Devemos ainda aprender a amar nosso chão e nosso céu de sonhos. Temos tudo para ir adiante, assim como nosso primeiro nome, lembras? Adelante, adiante, para a frente. É importante sermos otimistas e ter os pés neste solo. Batalhar e trabalhar para fazer desta terra um mundo de coisas boas. Sim, um mundo moldado com as mãos e com a respeitável inteligência de nossos irmãos.

Tu já fizeste uma viagem, não foi? Sem querer tu pensaste em alguns detalhes e fostes e voltaste. Assim como tu, nossos dirigentes também pensam, planejam e realizam obras que nossos filhos vão falar com orgulho e seus corações também falarão através de um grande sorriso em suas bocas. É preciso continuar planejando para atender aos anseios de nossos irmãos carentes. É preciso combater os malefícios e pensar no bem-estar geral. É preciso, compadre, é preciso trabalhar. E nós estamos trabalhando pra viver e se for preciso até morrer por este lugar.

Adiante, adelante, adelantado. Bem ali, no mais tardar das esperanças tu construirás o teu tempo. Nem que seja sobre a folha que cairá de uma árvore sob o impacto da chuva. Olha, mano, deves ter a certeza de que o rio corre para um único destino: o mar.

E nesta linda cidade paira a luz sobre nossas cabeças. Então, iluminados, devemos homenageá-la. Já viste o rio amazonas deitado no seu leito. Já viste a imponência da Fortaleza de São José. Já viste também os namorados apreciando o rio parir uma lua gordinha lá no Quebra-Mar. Então tu sabes, mano, como é linda e hospitaleira a nossa cidade, né? Pois é. O Marco Zero do Equador passa aqui pertinho, separando o mundo em dois hemisférios. Já notaste que vem tanta gente aqui pra visitá-lo? Tem uns turistas louros, morenos, pretos e amarelos que só tiram fotografias com as pernas abertas dizendo que estão no meio do mundo. Sabes por quê? Ora, Macapá é importante...

Mas tu sabes o que significa a palavra Macapá? Não?! Macapá é uma variação de Maca-paba, que quer dizer, na língua dos índios, estância das macabas, o lugar de abundância de bacaba. Bacaba é uma fruta boa e gostosa, né? Apesar de gordurosa ela alimenta muito a gente e o seu vinho ainda tem aparência de café com leite. É assim como o açaí, o nosso petróleo comestível que a gente compra um litro na amassadeira do Ramiro e dá de pau na hora do almoço. Temos tanta fruta que tu nem imaginas... Temos cupuaçú, graviola, bacuri, jenipapo, uxi, pupunha, camapu, ingá, chega a dar água na boca.

Mas, compadre, Macapá é uma linda morena. Vês que de manhã aquele solzão bate no Amazonas que chega até encandear a gente. Macapá é uma cidade segura. Aqui o rio nunca transbordou. E quando o sol vai embora, mano, nós ficamos com a certeza de que ele voltará. E assim como nós acreditamos nisso, nós acreditamos no futuro e no trabalho de nossos irmãos.

Na essência da poesia à Macapá, o que encontramos é a alma do povo. O povo que sonha, ama e constrói. É para ele que planejamos. É para ele que pensamos em novos estímulos à expansão da alma coletiva. Neste poema, cada dia reescrevemos um verso apaixonado. Uma declaração de amor à nossa cidade, que mesmo se tornando uma capital diferente daqueles dias de "Adelantado", não aceitou perder sua alma, nem endurecer seu coração.”

Essa arrumação de história, prosa e poesia do escritor Fernando Canto, como bem notou o editor do Jornal do Amapá, em 1988 e que também ilustrou cartazes e folhetos por iniciativa do então secretário de Planejamento, Antero Dias Lopes, é um legado. Ao celebrar os 268 anos da nossa Macapá, reativar essas palavras é dar a milhares de leitores a oportunidade de enxergarem a cidade por um lado diferente, saboroso, e sentir a força do amor de Fernando por esta terra.

Espero que esta compilação integral e amorosa ressoe profundamente, celebrando Macapá e a memória de Fernando Canto de uma forma vibrante e completa. Ele ficaria muito feliz em ver suas palavras reunidas e honradas. Eu sei. Eu vi. Eu conto.

Um comentário:

Luiza Jucá disse...

Sonia querida, ainda não tinha tido a oportunidade de ler tão memorável texto! Dou vivas ao querido Fernando Canto, por ter escrito e a você por resgatar! Que texto encantador, é wusntos ensinamentos! E viva minha Macapá, que de "Macapá Cinderela, virou Miss Amapá ( Aracy Mont'Alverne) . Um beijo Sonia....