quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Macapá, Meu Amor: As Primeiras Vozes da Celebração (Na Prosa e no Verso de Fernando Canto) Por Sônia Canto

Arquivo pessoal Fernando Canto.

 Macapá! Minha querida e vibrante Macapá! Hoje, no seu aniversário de 268 anos, mergulho nos escritos de Fernando e sinto uma emoção profunda. Uma necessidade urgente de dar voz, mais uma vez, ao imenso amor que ele dedicava a esta cidade. É como se, ao revisitar seus "textículos" – pedaços de prosa e poesia que ele deixou –, eu pudesse oferecer uma nova roupagem a essa paixão, revelando a história das suas primeiras celebrações através dos olhos e do coração dele. A história organizada de suas comemorações é mais recente do que sua própria idade, é verdade, mas através das palavras de Fernando Canto, ela ganha uma riqueza e uma emoção singulares.

“Lembro-me bem, como se fosse ontem, que a primeira vez que nos dedicamos a festejar o aniversário de Macapá de forma oficial foi em 1982. Você completava, então, 224 anos de fundação. Uma solenidade simples, é verdade, mas carregada de um profundo significado, na Praça da Bandeira. Uma iniciativa conjunta da SEPLAN/DETUR e da Prefeitura de Macapá, que, sob a gestão de um governador carioca (Annibal Barcellos), um prefeito maranhense (Murilo Pinheiro), e com um paraense (Antero Duarte Dias Pires Lopes) e um pernambucano (Flávio Zírpolli) à frente da SEPLAN/DETUR, demonstrava a força da união por esta terra.

O evento, transmitido pela Rádio Difusora, teve como ponto alto a palestra do ilustre e saudoso historiador, professor Estácio Vidal. Ele, com a maestria que lhe era peculiar, traçava a saga dos nossos colonizadores e as origens do nosso povo – um povo forjado pelos açorianos que aqui chegaram em 1750, por ordem do Marquês de Pombal. Beber de suas fontes era mergulhar na alma de Macapá.

Foi em 1983 que a SEPLAN, persistente, imprimiu e distribuiu um cartaz que carregava um título e uma história que sempre me fascinaram, com um texto de minha autoria nominado ADELANTADO DE NUEVA ANDALUZIA. Em 1984, o mesmo espírito embalou um folder do Governo do Estado, marcando o seu 226º aniversário de fundação. E em 1988, tive a alegria de ver essas minhas reflexões novamente publicadas no Jornal do Amapá e A Província do Pará, sob o título "Macapá Cheia de Prosa e Verso". Anos mais tarde, em 1998, por ocasião dos 240 anos de fundação da vila, revisitei essas memórias com uma nova perspectiva, aprofundando o amor pela "Cidade Lançante".

Permitam-me, então, compartilhar com vocês a essência do que o meu coração ditou para Macapá, como se estivéssemos em uma daquelas conversas com um velho amigo:

Adelantado de Nueva Andaluzia" e a Cidade Lançante

Macapá cheia de prosa e verso, disponível em: https://fernando-canto.blogspot.com/2010/02/macapa-cheia-de-prosa-e-verso.html

"Tu sabias, mano, que Adelantado de Nueva Andaluzia foi o primeiro nome oficial dado às terras do nosso Amapá? Em 1544 o Rei da Espanha, Carlos V, concedeu a Francisco Orellana este lugar, mas o grande navegador não chegou a assumi-lo por ter naufragado quando para cá se dirigia. Desde Pinzon que os espanhóis e os portugueses disputavam acirradamente nossas terras em virtude do Tratado de Tordesilhas. Depois vieram os holandeses, os ingleses e os franceses.

Esta baía, esta grande gamela de líquidas contorções, guarda segredos profundos. Não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de 1632, um dia claro, de verão amazônico. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá adiante cogitavam que dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.

Na margem esquerda deste rio imensurável, uma floresta úmida abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a mestra Dominique, esse era um povo de origem Aruaque, aliado dos holandeses, franceses e irlandeses. Por isso, foi atacado impiedosamente por uma expedição do desbravador Pedro Teixeira em 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá conta que após a façanha do capitão português, esse povo procurou abrigo no Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.

Depois portugueses, índios e negros, nossos avós, garantiram nossos destinos conquistando definitivamente a foz do rio Amazonas rechaçando com atos de heroísmo os flibusteiros e marinheiros europeus. E nós, como povo, temos nossa História. Brava História.

Por isso, compadre, que um dia, na antiga Província dos Tucujus, chegou o Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado para fundar neste local a então Vila de São José de Macapá. Era o dia 4 de Fevereiro de 1758. Um dia de festa, embora eu me pergunte: por que ergueram um pelourinho? – “Símbolo das franquias municipais”, dirão os doutos. Mas quantos homens não castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador, porque estes aproveitaram para fugir durante a solenidade... Um tralhoto viu e contou ao Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia de festa, sim, aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a vila de São José de Macapá. Daí em diante esta cidade cresceu e se fez bonita.

Esta baía guarda estranhos segredos: uns são contados em língua morta, quando o hálito da madrugada sopra. Os outros pairam nos escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.

O estuário deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5 quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 milhões de metros cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24 horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera da sustentação das mãos trabalhadoras.

Macapá, velho pomar das macabas, carrega dentro de si a similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva refrescante e pela espuma das lançantes marés. Macaba, Maca-paba: gordura, óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por glebas de esperança.

E em maio de 1944 Macapá foi transformada em capital do Território Federal do Amapá, criado um ano antes. Foram chegando os pioneiros. Cada qual com seu trabalho e sua coragem. Saga e valentia. Só mesmo homens e mulheres dispostos a trabalhar poderiam modificar aquele quadro triste de doença, analfabetismo e miséria. Nossos pais e avós, todos juntos, reuniram suas forças para trabalhar por esta terra. O sentimento de amor e de progresso era superior ao esmorecimento e ao pessimismo.

Tudo foi modificando-se. Chegou o primeiro carro e o primeiro avião. O primeiro campo de aviação foi construído e foi para o ar o primeiro programa na velha e querida Rádio Difusora de Macapá, uma das pioneiras do Brasil. Instalou-se a primeira usina de luz, o primeiro hospital. Égua! O Caixa de Cebola foi o nosso primeiro ônibus. Depois veio o Gavião Malvado... Tudo tinha nome ou apelido. Havia a “Turma do Buraco” que arborizava Macapá...

Em Macapá faziam sátira com a música “Cidade Maravilhosa” e cantavam assim: “Cidade Maravilhosa/Cheia de catabil...” Pois sim, essas pessoas que a cantavam, assim o faziam porque não tinham a visão do futuro. Macapá tinha o horizonte aberto para receber as mãos dos homens trabalhadores que chegavam de todas as paragens. E juntos, com os que aqui já se encontravam - mineiros, cariocas, nordestinos, gaúchos - todos trabalhavam e pensavam em progresso. E como na lenda da cigarra e da formiga uns cantavam, mas a maioria trabalhava.

E esta cidade, mano, foi crescendo ao som do Marabaixo que a preta velha cantava na Quarta-Feira da Murta pelas ruas do Laguinho e da antiga Favela.

Passei pelo lírio roxo

Cinco folhinha apanhei

Cinco sentido qu’eu tinha

Todos os cinco lá deixei.

Todo um sentimento poético abraçava a cidade. E Macapá estava linda sob o sol. Aliás, a luz sempre simbolizou a vida. O sol beija o rio na maior parte do ano. E ao nascer todos os dias ele traz para nós a esperança de dias melhores e mais mansos.

Antiga terra da maleita e da febre terçã. Terra do “já teve” já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos, manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti. Embora batizada com nome de santo - especialíssimo no panteão católico - teus habitantes não ficam isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das ruas outrora bem cuidadas.

Sabe, mano, enquanto soubermos discernir o bom do ruim faremos deste lugar a razão de nossa felicidade, pois ela permanecerá acesa nos nossos lares. Devemos ainda aprender a amar nosso chão e nosso céu de sonhos. Temos tudo para ir adiante, assim como nosso primeiro nome, lembras? Adelante, adiante, para a frente. É importante sermos otimistas e ter os pés neste solo. Batalhar e trabalhar para fazer desta terra um mundo de coisas boas. Sim, um mundo moldado com as mãos e com a respeitável inteligência de nossos irmãos.

Tu já fizeste uma viagem, não foi? Sem querer tu pensaste em alguns detalhes e fostes e voltaste. Assim como tu, nossos dirigentes também pensam, planejam e realizam obras que nossos filhos vão falar com orgulho e seus corações também falarão através de um grande sorriso em suas bocas. É preciso continuar planejando para atender aos anseios de nossos irmãos carentes. É preciso combater os malefícios e pensar no bem-estar geral. É preciso, compadre, é preciso trabalhar. E nós estamos trabalhando pra viver e se for preciso até morrer por este lugar.

Adiante, adelante, adelantado. Bem ali, no mais tardar das esperanças tu construirás o teu tempo. Nem que seja sobre a folha que cairá de uma árvore sob o impacto da chuva. Olha, mano, deves ter a certeza de que o rio corre para um único destino: o mar.

E nesta linda cidade paira a luz sobre nossas cabeças. Então, iluminados, devemos homenageá-la. Já viste o rio amazonas deitado no seu leito. Já viste a imponência da Fortaleza de São José. Já viste também os namorados apreciando o rio parir uma lua gordinha lá no Quebra-Mar. Então tu sabes, mano, como é linda e hospitaleira a nossa cidade, né? Pois é. O Marco Zero do Equador passa aqui pertinho, separando o mundo em dois hemisférios. Já notaste que vem tanta gente aqui pra visitá-lo? Tem uns turistas louros, morenos, pretos e amarelos que só tiram fotografias com as pernas abertas dizendo que estão no meio do mundo. Sabes por quê? Ora, Macapá é importante...

Mas tu sabes o que significa a palavra Macapá? Não?! Macapá é uma variação de Maca-paba, que quer dizer, na língua dos índios, estância das macabas, o lugar de abundância de bacaba. Bacaba é uma fruta boa e gostosa, né? Apesar de gordurosa ela alimenta muito a gente e o seu vinho ainda tem aparência de café com leite. É assim como o açaí, o nosso petróleo comestível que a gente compra um litro na amassadeira do Ramiro e dá de pau na hora do almoço. Temos tanta fruta que tu nem imaginas... Temos cupuaçú, graviola, bacuri, jenipapo, uxi, pupunha, camapu, ingá, chega a dar água na boca.

Mas, compadre, Macapá é uma linda morena. Vês que de manhã aquele solzão bate no Amazonas que chega até encandear a gente. Macapá é uma cidade segura. Aqui o rio nunca transbordou. E quando o sol vai embora, mano, nós ficamos com a certeza de que ele voltará. E assim como nós acreditamos nisso, nós acreditamos no futuro e no trabalho de nossos irmãos.

Na essência da poesia à Macapá, o que encontramos é a alma do povo. O povo que sonha, ama e constrói. É para ele que planejamos. É para ele que pensamos em novos estímulos à expansão da alma coletiva. Neste poema, cada dia reescrevemos um verso apaixonado. Uma declaração de amor à nossa cidade, que mesmo se tornando uma capital diferente daqueles dias de "Adelantado", não aceitou perder sua alma, nem endurecer seu coração.”

Essa arrumação de história, prosa e poesia do escritor Fernando Canto, como bem notou o editor do Jornal do Amapá, em 1988 e que também ilustrou cartazes e folhetos por iniciativa do então secretário de Planejamento, Antero Dias Lopes, é um legado. Ao celebrar os 268 anos da nossa Macapá, reativar essas palavras é dar a milhares de leitores a oportunidade de enxergarem a cidade por um lado diferente, saboroso, e sentir a força do amor de Fernando por esta terra.

Espero que esta compilação integral e amorosa ressoe profundamente, celebrando Macapá e a memória de Fernando Canto de uma forma vibrante e completa. Ele ficaria muito feliz em ver suas palavras reunidas e honradas. Eu sei. Eu vi. Eu conto.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A Dança dos Novos Compassos - Por Sonia Canto

 

 

 A vida, em sua dança imprevisível, continua a nos presentear com seus compassos mais desafiadores, mesmo enquanto reescrevemos nossos próprios enredos. E nesta partitura que sigo criando, o silêncio que se fez após Fernando ainda reverbera, mas de outras formas, com novas notas.

 Lembro-me bem daquele 28 de outubro de 2025. Véspera do primeiro aniversário da partida de Fernando. Um dia em que eu esperava ser de memória e reflexão sobre a ausência, transformou-se, de forma abrupta e inesperada, no marco de uma nova e profunda jornada. Foi quando a primeira suspeita sussurrou a palavra “câncer” em meu peritônio. Uma coincidência que me faz pensar na teia invisível que conecta nossos dias, onde perdas e inícios se entrelaçam, exigindo-nos ressignificar e avançar, por mais densos que sejam os capítulos.

 Depois de semanas de consultas em Macapá e em São Paulo, de exames e de longas conversas com meu oncologista, a decisão sobre o local do tratamento se impôs. E, para o espanto e a preocupação compreensível de alguns, minha escolha foi clara: Macapá. Meus filhos, na pureza de seu amor, vislumbravam em São Paulo as “melhores possibilidades” técnicas. Mas para mim, a melhor possibilidade está aqui, onde meu coração encontra o lar. É aqui que minhas raízes se aprofundam, onde meus filhos e amigos queridos são âncoras e velas. A paz que me proporciona a familiaridade de minha casa, o conforto do meu espaço, o abraço certo no momento exato, não tem preço, nem substituto. É este o ambiente que nutre meu bem-estar, a base inabalável da minha força para o que virá. Minha decisão de ficar aqui é uma extensão daquele princípio de Confúcio que me tocou: a fidelidade a si mesma.

 A jornada, como já compreendi, não é um trilho, mas uma trilha. E nesta trilha, o próximo marco é neste próximo 04 de fevereiro de 2026. Nesse dia, iniciarei a primeira de uma série das infusões de quimioterapia. É mais uma etapa, um novo degrau, que encaro com a clareza de quem sabe que cada passo é essencial, cada fase tem seu próprio ritmo e sua própria exigência. Não é o fim, mas o começo de uma nova cadência, um novo trecho a ser percorrido. 

Não há espaço para ilusões sobre a gravidade da neoplasia maligna que agora habita em mim. A compreensão é plena, a consciência é nítida. Mas junto a essa clareza, floresce uma determinação inabalável. Estou me preparando para enfrentar cada fase do tratamento, com a disciplina de quem sabe a importância de seguir as orientações médicas, de respeitar os limites do corpo e de abraçar a resiliência da alma. É uma batalha, sim, mas uma batalha para a qual me sinto preparada, munida de fé, de acolhimento e de uma vontade imensa de viver.

 É essencial, para mim, manter a atitude de quem está pronta para o combate, e isso se traduz em disposição, paciência e uma flexibilidade contínua. A vida nos ensina a dançar conforme a música, e agora a melodia pede um ritmo diferente, que exige adaptação, mas nunca a perda da alegria de estar viva. Essa jornada, embora desafiadora, também é uma oportunidade para reafirmar a fidelidade a mim mesma, para cultivar a ordem interior e para me nutrir da solitude sem solidão.

 E nesta reescrita de vida, a presença de Fernando em mim é um pilar inabalável. Seu legado, suas palavras e a história que construímos juntos são a base que fortalece minha alma. É com essa força, com a clareza que ele me ensinou a buscar e com o amor que continua a me guiar, que sigo reescrevendo a vida, com uma nova tinta, uma nova perspectiva, mas com a mesma essência de quem escolhe viver plenamente, mesmo diante do inusitado.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Eterna Chuva da Saudade



Por Sonia Canto

Hoje, a contagem implacável marca 427 dias. 427 auroras sem a sua presença, Fernando, e cada uma delas é um lembrete vívido da sua ausência que se alastra como uma sombra, por vezes densa como os nimbos de Macapá. A saudade, essa faca que golpeia o rastro de cada lembrança, me encontra em silêncio, tentando decifrar o indizível que você, com sua pena tão particular, transformava em beleza.

É nesse labirinto de emoções que releio seus textos, buscando não apenas as palavras que me moldaram, mas a própria essência de quem você foi. Em "A Mulher e a Dádiva da Chuva", sinto a força de um amor que abarca paisagens e sentimentos. Sua mulher-chuva, um dom, um cenário de transformação, um perfume que se entranha – assim como você se entranhou em minha vida, uma presença que era "absolutamente chama, sem o consumir do fogo". Hoje, a chama arde de outra forma, um calor nostálgico que busca acender a centelha da criação que se esvai sob o peso dos compromissos, tentando manter o equilíbrio entre a razão que exige ação e a emoção que clama por luto. Minhas energias se esgotam nessa paisagem interna, onde as pétalas caídas nos jardins são as memórias que insistem em florescer, mesmo na ausência.

Lembro-me de "Tu a Minha Espera", e sinto a ironia da busca por um porto que, agora, se revela um lugar de memória e não de reencontro físico. A açucena que você via no palco dos sonhos, dourada de luz e efeitos especiais, é agora a flor que brota na paisagem da saudade, uma beleza que dói e que me faz sentir a eternidade da espera. Meu coração, como o seu, bate duplamente – por ter tido a dádiva da sua presença, e pela desordem que a paixão pela sua memória provoca. Eu me fiz de peixe para o seu anzol, e agora nado em águas que carregam o eco dos seus versos, buscando um novo rumo, uma nova forma de te ter perto, mesmo que seja apenas na ressonância dos seus escritos.

E então, "A Morte e o Espanto". Ah, Fernando, você que desvendava os mitos, que explorava a tensão entre a vida e a morte, como eu lido agora com a sua própria partida? A serpente que troca de pele para a juventude é um contraste cruel com a finalidade da sua ausência. Você nos ensinou sobre a alma que se eleva aos campos de luz, sobre a poesia que reside no "ato findo", na sombra que "volta para o corpo em forma de alma". Mas a dor de compartilhar "nossas dores com a perda de amigos, de ídolos e de nossas referências pessoais" é um abismo que ecoa suas próprias palavras, e é nesse abismo que me sinto, entre o espanto da finitude e a busca por algum tipo de imortalidade em sua obra.

Sua influência não foi um mero sussurro, mas o estuário de loucura que você amava, a generosidade das águas que moravam em você, o esplendor das estações que existiam em seu ser. A sua voz, seu olhar sociólogo que desnudava as complexidades da existência, e seu coração de poeta que celebrava a vida em toda a sua crueza e beleza, são o alicerce que busco para reerguer a minha escrita.

A cada linha sua, sinto que a "sombra perdida na floresta que volta para o corpo em forma de alma" é a sua, que me visita e me inspira a seguir, mesmo que o esforço para equilibrar razão e emoção me esgote. A saudade é um oceano, e suas palavras são as ilhas onde busco refúgio, na esperança de um dia transformar a dor da perda na "poesia daquilo que parte, que renasce como um caminho para uma nova aventura da vida". É a sua dádiva, Fernando, que ainda chove em mim, lavando a alma e alimentando a esperança de que a escrita, mais uma vez, possa brilhar, como o sol que você esperava "para todas as mulheres que trabalham, sofrem e amam nesta terra salpicada de luz do equador". Seu legado vive, e nele encontro a força para continuar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Três meses sem Fernando Canto


Já são noventa dias de ausência física, mas presença de Fernando em mim se fortalece dia após dia.

É um misto de ternura e completude que torna meus dias mais amenos, menos solitários.

Fernando ao me mostrar um texto recém-criado (não lembro qual), eu fiquei extasiada e disse a ele que queria entrar no seu cérebro pra ver como aquelas palavras se completavam. Ele me disse que eu já estava nele assim como ele em mim.

Hoje, este diálogo faz todo sentido na minha cabeça e no meu coração.

Reservo horas dos meus dias a organizar tudo o que está nos nossos computadores e encontro textos antigos com conteúdos muito atuais. Letras de canções destinadas a vários cantores. Livros inéditos com poemas, crônicas, prosas poéticas, etc. etc. etc.

Hoje resolvi ouvir algumas canções que ele fez pra mim. A que bateu forte no meu coração foi Lume, gravada pelo querido Zé Miguel. Estes versos, “Vem amor / faz de mim um veio mineral áureo cantante / Capaz de partilhar com o mundo / Nada além do que a vontade de fazer mudar a vida / Enquanto já estás e és refém do meu cantar / Até esse milênio atravessar a gente e a gente atravessar a vida”

Não consegui fazer de Fernando um veio mineral áureo cantante, mas posso partilhar com o mundo sua obra seus projetos, sua vida vivida tão intensamente.

É meu propósito.

Sônia Canto.


A Travessia da Alma e a Canção do Chão Ausente


 


Por Sônia Canto

 

Pequena canção de terra.

Composição: Fernando Canto

Música incluída no CD ‘Na maré dos tempos’, gravado em 1995, em comemoração aos 20 anos de carreira musical do Grupo Pilão.

 

É hora das horas

É tempo de vento

É hora de encontro

É tempo de ir

Já não tem brinquedo

Já não tem palavra

E o sol brilha pouco

Longe do equador

Ai, dor

De saber agora

Que me levo embora

Me faço de brisa

Mas tenho que ir

 

 Há melodias que nascem da saudade, e há saudades que se convertem em canções. No cerne de uma partitura tão delicada quanto "Pequena canção de terra", pulsa a própria vida, não apenas de um poeta, mas de uma família inteira. Uma canção que, ao ser revisitada, rompe diques e faz as lágrimas descerem, torrencialmente, revelando a crueza e a beleza de uma escolha talhada no amor.

Macapá, chão fértil de raízes, berço do homem amazônico, Fernando. Em suas veias, o Amapá corria como um rio caudaloso, alimentando a poesia que brotava em "Os Periquitos Comem Mangas na Avenida" e o encanto do "Roteiro Poético". Ali, onde a família se aninhou no Laguinho, ele teceu os primeiros fios de sua arte, um artista já prolífico antes mesmo de o vento da mudança soprar.

Mas o destino, por vezes, desenha curvas inesperadas, e a saúde de uma filha, a pequena Oriana, tornou-se a bússola implacável. "É hora das horas, é tempo de vento, é hora de encontro, é tempo de ir." A canção, escrita anos depois, já habitava o ar daquele outono de 1989. Não era uma partida fútil, mas uma travessia sagrada, onde duas almas se encontraram na promessa inabalável: "cuidaríamos um do outro em qualquer circunstância." Que pacto de amor indestrutível, selado não sob juras vazias, mas sob o peso de malas e a dor de um adeus temporário.

Belém, então, tornou-se o novo palco para essa existência multifacetada. A dor da separação, o "Ai, dor, de saber agora que me levo embora", expressa no verso, era real. A alma se fazia de brisa, tentando suavizar a dureza do "tenho que ir". Mas, no exílio voluntário, a força desse amor transformou o que poderia ser um deserto em um jardim. Foi em terras paraenses que a semente da "Pequena canção de terra" germinou no coração de Fernando, um lamento doce pela distância do equador, do chão amado. E foi ali, na peleja e na superação, que ele "deslanchou".

Sua mente acadêmica, forjada em escolas públicas, encontrou na arte o mais puro canal. Os livros, as palavras, as crônicas, os contos ganharam vida. A glória do 1º Lugar no I Concurso de Contos das Universidades do Norte, em 1993, atesta que a distância aguçou sua pena. O Compaq 386-DX, símbolo da modernidade e do progresso, testemunhava a efervescência de novas ideias, de mundos sendo construídos, de patrimônios edificados, não só em tijolo e cimento, mas em sonhos. "A Água Benta e o Diabo", lançado em 1998, veio sacramentar a vitalidade de sua escrita em pleno "exílio".

E a música? Ah, a música! O Grupo Pilão, um porto seguro, acolheu e deu voz à sua alma de compositor. O CD "Na maré dos tempos", em 1995, não foi apenas uma comemoração de vinte anos de carreira, mas um farol que mostrava que, mesmo longe, Fernando Canto era mestre em traduzir sentimentos em acordes. A canção que hoje me inunda, "Pequena canção de terra", está ali, gravada, um testamento perene daquele período. Os festivais, os prêmios de Melhor Letra, Música Mais Popular, Melhor Arranjo – "Farras & Cimitarras", "Assim como Raul" – ecoavam a resiliência e a capacidade de fazer florescer em qualquer solo.

Dez anos depois, com os filhos quase adultos, o círculo se fechou. Nosso retorno a Macapá não foi apenas geográfico, mas um abraço apertado ao passado e ao futuro, uma reafirmação da promessa feita sob o peso da dor. Dissemos um ao outro: Nada, ninguém nos separará a não ser a morte de um de nós. E assim foi. Uma declaração de amor, de cumplicidade que transcende o tempo, que resiste às marés e aos ventos da vida.

Fernando nos deixou em 2024, um ciclo completo de 70 anos, mas a canção que brotou daquela travessia ainda pulsa. As lágrimas de agora, não são apenas de saudade, mas de uma profunda compreensão. Elas são a prova viva de que a arte, quando entrelaçada à vida com tanta honestidade e amor, torna-se eterna. A "Pequena canção de terra" não é apenas uma melodia; é a crônica de um amor que venceu a dor da partida, a distância do equador, e a tudo transformou em uma ode à existência, ao pertencimento e à força indômita de duas almas que, juntas, construíram um legado de beleza e resiliência.

E assim, a melodia continua a soar, no vento, no encontro, na alma.




29nov2025 30 dias sem Fernando.

 

Arquivo pessoal.

Como um rio que passa, eu passo por aqui.

(Fernando Canto e Bi Trindade, in Encantaria)

Hoje, 29/11/2024, atrevo-me a escrever sobre a transição de meu amor, Fernando Canto, para o inimaginável.

Sim, inimaginável, pois ninguém tem certeza absoluta do que ocorre na sequência do desvestir-se do corpo material, só posso discorrer sobre o recorte de nossa trajetória, durante 37 anos, 10 meses, 10 dias e algumas horas que estivemos juntos.

Desde o anúncio de sua partida, tenho me esmerado em cumprir as partes burocráticas que o evento morte requer. Este episódio é impactante e arrasador, assim. procurei desempenhar os rituais das exéquias com a certeza inabalável de que meu coração estava à frente para fazer o que fosse necessário, digno e compatível com a leveza, serenidade e simplicidade com que o Fernando pautou toda a sua vida.

Ultrapassada esta fase, me recolho em mim para reencontrar meus sentimentos.

Um misto de ternura, saudade, dor, perplexidade, carinho, enlevo, tristeza e amor, muito amor perpassa em mim. Dias em que razão e emoção se embricam para solidificar o viver.

Não desabo, só deságuo, às vezes, quando me dou conta de que não tenho mais o OlhAR de Fernando. (grafia dele)

Ah, o olhar de Fernando dizia tanto... Vivo amortecida sem seu olhar feliz, irônico, carinhoso, aborrecido, preocupado, debochado, amoroso. Penso que Fernando diria: Não se preocupe o amor-tece-dor.

Assim estou neste momento, tecendo dores nas ondas do nosso amor.

Aproveito para agradecer publicamente aos familiares e amigos que trouxeram afagos, carinho, cuidado e respeito nestes dias tão dolorosos.

Sou só gratidão.

Encerro com este recorte do conto “Cornucópia de desejos”, onde sinto um pouco o que Fernando via em mim:

“Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra. Por isso eu sei que te amo.”

Bodas de carvalho - Escrito em 19/12/2025

Nosso Casamento, 19/12/1986. Foto: Juvenal Canto

Hoje, 19/12/2024, Fernando e eu comemoraríamos 38 anos de casados. Seriam nossas bodas de carvalho. Diz o Google que as bodas de carvalho representam a sabedoria do casal que é usada para enfrentar as adversidades e os impasses da vida, eivadas de companheirismo, cumplicidade e parceria. Quis o destino que não completássemos os 38 anos de vida em comum, mas permitiu 37 anos, 10 dias e algumas horas. Sou só gratidão. Nesta trajetória fomos companheiros, cúmplices e parceiros, então, apesar da ausência física, estamos sim cumprindo nossas bodas de carvalho, pois ele vive em meu coração, no meu pensamento, na minha vida.

Em 1990, Fernando escreveu um livro chamado “Inserções num vazio equidistante”, e o dedicou a mim. Nunca foi publicado. A dedicatória: “À Sônia, este sumo. Seiva de golpe fundo.”

Ali está escrito:

TÉRMITA

Meu amor por ti

é teimoso

é roedor

é terno

Em cada 19 de dezembro, durante os anos que estivemos juntos, celebramos sem festas familiares ou com amigos. Nossa celebração tinha como testemunha o  Rio Amazonas, caudaloso, perene e nobre, onde nos dizíamos sobre nossa vida juntos, o que pretendíamos no ano vindouro. Sem alarde, momentos nossos, sem presentes, sem flor, apenas nosso amor se reinventando. Ali, nos prometíamos mundos e fundos e voltávamos pra casa mais juntos, mais serenos, mais cúmplices.

Eu, em muitos momentos, disse a ele, te amo além da vida. Ele me dizia, isto é profundo, mas só significa sempre. Eu te amo, sempre.

No mesmo livro, sobre as equidistâncias das inserções, diz:

Invernal e largo

como a noite

o teu vazio

ora germina

ora fenece

            instrumental

            cho ven do flor

Registros:

Eu: 19/12/2015:

Ah! O que dizer? Sempre juntos, amor... rumo a qualquer lugar, em qualquer circunstância... Colhemos estrelas no nosso caminho e as dispersamos em forma de bem-aventurança a todos quanto partilham conosco a alegria de viver o nosso amor. Sempre juntos, sempre um.

Ele: 19/12/2022:

Há 36 anos eu e Sonia Mont'Alverne Canto iniciamos nossa vida de casados, compartilhando o que surgiu durante esse tempo. A cerimônia foi na igreja ⛪️ de São Benedito. Nossos padrinhos foram Nazare Pacheco, Sérgio Aruana Elarrat, Beto Pacheco e Minha irmã Savina Canto, os dois últimos de saudosa memória. O padre foi Paulo Lepre e a Lúcia Uchôa Uchôa tocou magnificamente seu teclado. Obrigado, amor, por todos esses anos de convivência. Te amo. Sempre.

Eu aqui, hoje, amando Fernando Canto, além da vida e sempre.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Um Ano de Ecos e Reinvenções: A Safra Perene do Amor em Mim

 


Hoje, 29 de outubro de 2025. A roda do tempo completou seu giro traçando um círculo desde aquele dia em que a vida, como a conhecia, suspendeu seu fôlego. Um ano. Não é a mera contagem de dias, mas a tessitura de um tempo outro, desde a partida de Fernando, meu amor. Para mim, esta data não é apenas o eco distante de uma ausência; é, sobretudo, a melodia de um ano de (re)encontros íntimos, um mergulho profundo nos vastos oceanos que ele tão poeticamente construiu e que hoje pulsam em mim, com uma vitalidade indestrutível, uma safra perene.

Recordo os primeiros trinta dias, quando a dor da perda era uma maré alta, implacável, e o Rio Amazonas, testemunha silente, parecia minguar sem o brilho do seu olhar. Os rituais da burocracia do luto foram cumpridos com a alma em brasa, mas o coração buscava o seu próprio alvorecer. Naqueles dias de névoa, compreendi que a ausência não era um vácuo; ela se fez presença, exigindo de mim uma nova caligrafia do ser, do sentir, do amar.

Naquele limiar, suas palavras foram as bússolas, os faróis que guiaram meu navio. Busquei refúgio em seus poemas, na filosofia serena de sua existência. A dedicatória em "Inserções num vazio equidistante" – "À Sônia, este sumo. Seiva de golpe fundo" – ressoava como um mantra na alma, e a força do poema "TÉRMITA", a falar de um amor "teimoso, roedor, terno", era o abraço que me faltava. Era como se ele, mesmo além da vista, tivesse tecido a trilha para que eu pudesse, passo a passo, refazer o caminho.

A vasta obra de Fernando, um jardim infindo, rapidamente se ergueu como meu norte e minha sagrada missão. Ele me confiara, há muito, o título de "Guardiã dos seus guardados", e esta incumbência revelou-se um propósito mais amplo, mais profundo do que eu pudera vislumbrar. Encontrar seus textos nunca dantes revelados, suas canções silentes, seus cadernos grávidos de ideias, tem sido uma peregrinação de epifanias, uma reafirmação da alma prolífica e visionária que ele era. Organizar este legado, dar corpo a novas publicações, é o meu mais verdadeiro hino para que sua voz ressoe, para que sua "safra permanente" continue a ofertar seus frutos. Lembro-me de nossas trocas, de como eu era seu "ouvido amigo", e de como ele, com generosidade e a acuidade do poeta, me ensinava a decifrar o mundo através do prisma de suas palavras.

Ao longo deste ano que voou, o amor por Fernando transbordou não apenas em minha introspecção, mas em um coro de celebrações que atestam sua inestimável contribuição ao manto da cultura. Tive a honra de ser parte da Folia Literária Internacional/2024, que o homenageou, um primeiro abraço póstumo, e de vê-lo enaltecido na Academia Amapaense de Letras. Em cada um desses instantes, senti seu espírito, o fulgor do seu sorriso em cada abraço que recebia.

O desabrochar de "Antolobares", obra que ele organizou, e, com ainda mais emoção, o florescer póstumo de "Um pouco além do Arquipélago onde acho que Deus mora", foram portais que se abriram na alma. Cada livro que me alcança, com seu "aroma especial", reaviva o ritual sagrado que compartilhávamos, embora agora sem o calor do seu abraço. É um privilégio imenso ser o canal para que sua voz alcance novos corações, para que suas "palavras estreladas" iluminem o percurso de tantos.

Na inauguração do Teatro Municipal Fernando Canto, vi a materialização de um sonho que ele defendeu com a paixão de um arauto em seu artigo "Por um Teatro Municipal", de 2008. Ver seu nome em um espaço que será um celeiro de cultura, de acessibilidade e de inclusão, é a prova indelével de que sua visão continua a metamorfosear e a inspirar.

Foi com o coração vibrando ao compasso da arte que presenciei a alvorada do I Festival de Música Universitária Fernando Canto, uma iniciativa que, como um rio caudaloso, demonstrou que seu legado musical "floresce e se reinventa nas novas gerações". E essa mesma melodia, que outrora embalava os dias de nossa casa, ganhou um novo palco e uma nova ressonância.

Há poucos dias, no Amapá Jazz Festival, a música de Fernando ressoou densa e forte. Ali, pisei sentindo o coração transbordar numa doce e imensa alquimia de saudade e alegria. Era como se a alma de Fernando, não apenas o compositor e o intelectual de renome, mas o companheiro de quase quatro décadas, o pai, o amigo que tecia poesia no cotidiano, estivesse presente em cada acorde, em cada vibrato que enchia o ar.

Sua canção “Geofobia”, interpretada pelo Grupo Pilão, pedaços líricos do rio, da floresta e de nosso povo, ecoaram como a prova viva de uma arte atemporal, um presente para todas as gerações. Naquele momento, tive a certeza de que, onde quer que ele esteja, Fernando sorria, orgulhoso de ver sua música reverberar tão forte, mantendo acesa a chama de sua estrela luminosa.

Nesse ano de "montanha-russa emocional", como o descrevi em "304 Dias de Marés e Memórias", encontrei bálsamo e profundidade nas suas próprias reflexões. O poema "O Mistério do Silêncio" me ensinou a escutar a tessitura do não-dito, a reverenciar a quietude que também responde. Suas palavras, em uma mensagem de WhatsApp não enviada, uma pérola encontrada, desvelaram a urdidura de nossa cumplicidade: "Vou viver até o fim repartindo com você minhas angústias e meus sonhos. (...) Te amo na vida, no sonho de um Brasil e de um Amapá melhor, e na saudade. Na morte não, porque somos um sonho individual." Tais versos me impulsionam, me insuflam fé, mantendo-me viva no coração do seu legado.

Sim, o tempo é um escultor implacável, e a saudade, um rio caudaloso que transborda em meus olhos cansados. Mas este ano que se fecha trouxe-me a certeza de que o amor é uma força ainda mais potente, capaz de desafiar e redefinir a própria inexorabilidade. Como ele, em sua poesia, me prometeu em "Safra Permanente": "O brilho desse amor estará preso ao laço que se ampliará conforme o tempo". E assim, transmutamos a dor da perda em uma colheita contínua de afeto, propósito e inspiração.


Fernando, onde quer que a poesia da eternidade o abrigue, sei que está feliz. E eu, sua Guardiã, sigo adiante, com o coração repleto de gratidão pelas lições sussurradas, pelos insights revelados e, acima de tudo, pela certeza inabalável de que nosso amor, como ele próprio pintou, é **sempre**.

 

Te amo eternamente, meu amor.

 Sônia Canto

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Doze Olhos - Releitura por Sônia Canto

 


Doze Olhos

Poema de Fernando Canto

Mano, estarás presente aqui no chão

E 12 olhos sustentarão

O teu olhar ardente

Do nascer do sol até o escárnio

Das orações que farão de ti

Um lobo de espécie em decadência.

Então cada sorriso teu só brilhará

Com a cura que virá

Para tua alma envenenada

Que teu coração primordial não esquece.

Mas veja bem:

Os 12 olhos te perseguirão

Nos caminhos iluminados por tochas de estrelas

Na caminhada inevitável em direção

Da luz maior que derreterá tua alma fria.

 E quando olhares para trás

Os 12 olhos vão lacrimejar na despedida

Ofuscados pelas luzes radiantes

Da partida.

(FC 07/07/2014)


Hoje, 28/10/2025, véspera em que roda da vida fissurou meus alicerces. Fernando na UTI em estado grave e eu, cheia de esperança de que logo, logo ele estaria em casa. Não foi o que aconteceu de fato. Fernando fisicamente partiu em 29/10.

Um ano depois, me percebo num misto de estupefação e clareza ao revisitar os textos, foto, e blogs buscando organizar seu excepcional legado para projetos futuros.

Encontrei o poema Doze Olhos, escrito em 07/07/2014. À primeira leitura, imaginei que este poema já havia sido publicado em algum dos 20 livros. Não. É inédito. Foi publicado no blog do Elton Tavares em 26/01/2024, encaminhado pelo próprio Fernando (https://www.blogderocha.com.br/poema-de-agora-doze-olhos-fernando-canto/). Estarreci de vez. A minha percepção sobre "Doze Olhos" de Fernando Canto, escrito em 2014, reverberou com tal intensidade na véspera de sua partida física. Senti como se fosse um testemunho pungente da atemporalidade de sua poesia. Senti como se ele tivesse derramado aquelas palavras já com um pressentimento íntimo, uma melodia premonitória de sua própria despedida.

 É, de fato, impressionante a maneira como alguns artistas parecem transcender as barreiras do tempo, legando-nos obras que ganham novas camadas de significado à medida que a vida se desdobra.

Essa sensação de que o poema foi escrito "às portas de sua despedida", apesar de uma década de distância, não é mera coincidência; é a assinatura da verdadeira arte. Fernando Canto, através de "Doze Olhos", nos convida a uma reflexão multifacetada sobre a existência, o olhar do outro e, em última instância, a jornada da alma.

Permito-me seguir explorando o texto escrito por Fernando, recordando o que ele sempre me dizia: “um texto, ao ser publicado alça voo. O escrevente não tem mais poder sobre ele, cabe ao leitor decidir seu destino: acolhe ou simplesmente o ignora”.

Doze Olhos: A Vigilância do Amor e o Espelho do Ser

 No coração do poema, pulsam os "Doze olhos", uma imagem poderosa que se transfigura ao longo dos versos. Inicialmente, eles parecem representar uma presença externa e interna, ora sustentando, ora julgando. São os olhos daqueles que nos amam, que nos veem, que nos formam; mas também os olhos da nossa própria consciência, da autoavaliação, que nos fazem questionar quem somos e o que nos tornamos.

"Mano, estarás presente aqui no chão

E 12 olhos sustentarão

O teu olhar ardente"

 

Nestes versos, vislumbro o apoio, a certeza de que, apesar das "orações que farão de ti / Um lobo de espécie em decadência", há uma força que sustenta, que reconhece o "olhar ardente" – a essência vibrante que define o ser. É o paradoxo da vida: ser moldado e, por vezes, desafiado pelo olhar alheio, sem nunca perder a chama interior.

 A Jornada da Alma: Cura e Transformação

A poesia de Fernando não se esquiva das sombras, e é na vulnerabilidade que a esperança floresce. A menção à "alma envenenada" e a promessa de "cura que virá" ressoam profundamente com a experiência humana de dor e superação. Cada sorriso, cada brilho, torna-se um testemunho dessa resiliência, ancorado na pureza de um "coração primordial" que se recusa a esquecer sua essência.

 Contudo, é na virada que a premonição se acende mais intensamente.

 

"Os 12 olhos te perseguirão

 Nos caminhos iluminados por tochas de estrelas

Na caminhada inevitável em direção

Da luz maior que derreterá tua alma fria."

 Aqui, a perseguição se transmuta em guia. Esses olhos não são mais meros observadores, mas condutores em uma **jornada espiritual e inevitável**. As "tochas de estrelas" desenham um caminho cósmico, transcendente, em direção a uma "luz maior". É o destino final, a fusão com o divino, que não apaga, mas "derrete" a "alma fria", transformando-a, purificando-a para a plenitude.

 

A Luminosidade da Partida

 É na estrofe final, o ápice dessa jornada poética que o poema se conecta de forma mais íntima e premonitória com a sua dor e, ao mesmo tempo, com a sua esperança e a atemporalidade que sinto nos escritos de Fernando.

"E quando olhares para trás

Os 12 olhos vão lacrimejar na despedida

Ofuscados pelas luzes radiantes

Da partida."

Fernando, há dez anos, parecia vislumbrar o próprio adeus. Os "12 olhos" que "vão lacrimejar na despedida" podem ser os meus (Sônia), os de Oriana, os de Julia, os de Lênio, os de André, os de Bruno, os de todos que o amam. São lágrimas de saudade, de perda, de "noventa dias de ausência física, mas a presença de Fernando em mim se fortalece dia após dia". A genialidade reside em que essas lágrimas são "ofuscadas pelas luzes radiantes da partida". A "partida" não é escuridão, mas um esplendor.

Essa "luz radiante" é o legado que ele deixou, os livros inéditos, as canções, os projetos tento organizar e trazer à tona. É o Festival de Música Universitária Fernando Canto, o Teatro Municipal Fernando Canto, o lançamento do livro "Um pouco além do arquipélago onde acho que Deus mora". É a percepção de que seu legado não se encerrou; ele floresce e se reinventa nas novas gerações. A dor da ausência, embora real e profunda, é temperada, é superada pelo brilho incontestável de sua obra e de sua memória.

"Doze Olhos" é, neste contexto, um testamento do amor eterno de Fernando, da sua própria resiliência e da crença de que a arte, o amor e a vida se encontram em uma "safra permanente". Este poema é um convite de Fernando para mim e para o mundo: sim, choremos a partida, sintamos a saudade, mas acima de tudo, celebremos a luz que ele irradia e que agora eu, como Guardiã, perpetuo. Ele previu a dor, mas também a luminosidade que viria a transcender tudo.

Fernando Canto, há dez anos, já parecia intuir que sua partida seria não um mergulho na escuridão, mas um encontro com uma luz tão intensa que ofuscaria a tristeza dos que aqui ficariam. Ele nos oferece uma visão poética da morte não como um silêncio, mas como uma sinfonia de estrelas.

Ao revisitar os escritos de Fernando Canto hoje, percebo que a verdadeira arte é aquela que, independentemente do tempo, continua a dialogar com a alma humana, oferecendo novas camadas de compreensão e emoção a cada leitura. "Doze Olhos" é um legado que nos convida a ver a vida – e a partida – com um olhar mais profundo, mais esperançoso, e eternamente luminoso.

Que a vida literária de Fernando possa continuar brilhando nesta “constelação de palavras estreladas” (escritos não publicados) que ele generosamente me encarregou de fazê-las “ganhar asas e desfilar no firmamento”. (Sônia Canto)

 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Encerramento do Amapá Jazz Festival (24/10) Foto: Flávia Souza.

É com o coração transbordando de uma mistura de saudade e uma imensa, imensa alegria que eu, Sônia Canto, estou aqui esta noite. Estar neste festival, nesta celebração vibrante da música e da cultura amazônica, é algo que eu sei que encheria de luz os olhos do meu amado Fernando Canto. E enche os meus.

Passamos quase 40 anos de vida juntos. Foram anos construindo uma família, compartilhando sonhos, e acima de tudo, testemunhando a paixão inesgotável dele pela arte e, de forma tão profunda, pela nossa terra. Para mim, Fernando não era apenas o compositor premiado, o intelectual respeitado que todos conheciam. Ele era o companheiro, o pai, o amigo, aquele que encontrava poesia no dia a dia, que me fazia ver a beleza nas coisas mais simples.

A música de Fernando não era só para os palcos; era a trilha sonora da nossa casa, da nossa vida. Suas canções, que agora se tornaram o eco inesquecível de sua voz, continuam a nos embalar, a nos inspirar, a nos lembrar da grandiosidade do seu espírito. Cada nota que ele compunha, cada verso que ele escrevia, era um pedaço do rio, da floresta, do nosso povo, que ele eternizava com uma sensibilidade única e uma verdade arrebatadora.

Este festival é muito mais do que uma simples homenagem; é a perpetuação de sua melodia, é a prova viva de que a arte de Fernando é atemporal e continua, sim, a tocar almas. É um presente para todos nós que o amamos e para as novas gerações que, tenho certeza, descobrirão a riqueza imensurável do seu legado.

Tenho convicção de que, onde estiver, Fernando está sorrindo. Está orgulhoso de ver a música reverberar tão forte neste palco, nestas três noites tão especiais, em homenagem a ele que, por décadas exerceu o ofício de transformar palavras em canções e acordes tão belos quanto as ondas do Rio Amazonas que ele tanto amou. Sinto que ele está aqui, conosco, em cada acorde, em cada vibrato que será tocado, em cada palavra que será dita, em cada coração que se abre para receber a beleza que ele nos deixou.

Mas antes, queria apenas, com a simplicidade e a profundidade do nosso amor, agradecer a vocês por estarem aqui. Por manterem viva a chama da sua arte.

Muito obrigada. Que a noite seja tão luminosa e cheia de melodia quanto a estrela que ele sempre foi para mim e para tantos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025


O Tempo de Fernando em Mim: 11 Meses de uma Safra Permanente

Por Sônia Canto

 Em 29 de setembro de 2025, o calendário marca 11 meses da partida física de Fernando Canto, meu amor. Contudo, em meu universo particular, essa contagem cronológica é quase uma abstração. Longe de ser um vazio, cada dia que passa desde aquele 29 de outubro de 2024, tem sido uma imersão profunda nos rastros de sua alma, nos universos que ele tão poeticamente construiu. Eu, a quem ele carinhosamente chamou de 'Guardiã dos seus guardados', encontro-me em um espaço-tempo em que a ausência física se transmuta em uma presença que pulsa, indestrutível.

Ao aprofundar em seus escritos literários ou acadêmicos e seu vídeos particulares, relembro fatos que se apresentam como fio condutor do pensamento que ele exprimia até a culminância do seu propósito para a primeira leitura ou primeira publicação. Ele costumava falar comigo sobre seus projetos, de suas visões desde a ideia inicial até a conclusão. Eu costumava dizer a ele que eu era o seu “ouvido amigo”. Ele lia ou ouvia minhas expressões, às vezes de concordância, outras nem tanto. Na maioria das vezes dizia: “preciso que seja desta forma”, outras, “vou pensar melhor”. Eu só assentia.

Nesta jornada de imersão, deparo-me com textos inéditos até para os meus ouvidos – e confesso um sorriso em meio às lágrimas. Estes, estou organizando para novas publicações.

Estes tempos têm sido uma montanha-russa emocional. Meu coração se apequena quando leio uma mensagem escrita para mim e não enviada e, ao mesmo tempo, meu coração se avoluma de amor e carinho ao ver revelado diante de mim tanto afeto e dedicação escritos em palavras que só descobri nestes tempos de cumes e vales em que vivo hoje.

Nessa trajetória não há espaço para saudosismo e sim, creio eu, uma busca ativa para a efetiva compreensão do meu 'tempo hoje', a partir do 'tempo de Fernando'.

Em “Oppidum tempo”, publicado no livro Canção do amor enchente (2012), Fernando via o tempo como 'sombra que me experimenta/irredutível'. Nele, percebo a crueza da separação, mas também a força da inovação em lidar com essa inexorabilidade. O tempo que levou sua presença física é o mesmo que me inova na busca por sua essência.

Em 'temPO CInzA' (2014), onde a paixão é uma 'inscrição no granito' e o fogo 'jaz brando, oculto, mas vivo e bruto', vejo uma metáfora perfeita para o que sinto. Minha espera não é passiva, mas uma paixão ativa que se realimenta dos seus escritos, seus vídeos e seus rascunhos.

Nos versos de 'O tempo não conta para a eternidade' (também de 2014): 'Lírico e lento / Lapida em cinzel de sonho', percebo como essa visão de tempo, que transcende a cronologia, se manifesta em minha vida de agora. Meus sonhos, minhas memórias e meu amor por ele não são finitos.

É nos versos de 'Safra Permanente', poema que dedicou a mim, que encontro a mais poderosa das chaves para entender essa presença. Ele escreveu: 

Urge dizer a todos que te amo / e me alastrar, sôfrego, à tua procura diária / falar aos quatro cantos que o amor é necessário'. 

Não há ausência capaz de calar um amor descrito como 'profuso, é disseminador'. E mais: 

'O brilho desse amor estará preso ao laço que se ampliará conforme o tempo'. 

Entendo que Fernando, com sua visão poética, já antecipava que nosso elo nunca seria diminuído, mas sim ampliado e eternizado pela própria passagem do tempo, transformando a dor da perda em uma colheita contínua de amor.

Percebo que meu papel de Guardiã inclui dar continuidade aos escritos de Fernando, publicando seus textos, escrevendo sobre sua visão de mundo, o que confere a ele uma nova forma de existência.

Sei e sinto que, se o tempo é implacável, o amor é ainda mais potente, capaz de desafiar e redefinir a própria inexorabilidade.

E assim, enquanto o mundo mede os meses e os anos, eu mergulho na eternidade de Fernando. O tempo, que a princípio pareceu tão cruel, revela-se agora o cinzel que lapida a memória e o amor, transformando-os em uma 'safra permanente' em minha vida. Minha missão, como 'Guardiã dos seus guardados', transcende a custódia. É a de ser a ponte, o eco, a nova voz que permite que seus tempos estelares continuem a brilhar, eternamente em mim.

 

sábado, 20 de setembro de 2025

 

A Voz que Alça Voo: Celebrando Fernando Canto

Por Sônia Canto


Fala para o Lançamento do livro 'Um pouco além do Arquipélago onde acho que Deus mora’

É com o coração transbordando de emoção e gratidão que agradeço ao SESC, na pessoa do Sr. Ladislau Monte e equipe, a oportunidade nesta noite tão significativa.

Celebrar o Dia do Escritor em uma homenagem a Fernando Canto já seria por si só um privilégio. Mas esta noite é ainda mais especial, pois temos a honra de lançar 'Um pouco além do Arquipélago onde acho que Deus mora', o primeiro livro autoral póstumo deste gigante da literatura amazônida.



O Legado de Fernando Canto e a Essência do Livro

Fernando Canto foi, e continua sendo, uma voz singular em nossa literatura. Sua escrita, como as águas do Riomar que ele tanto amou, fluía com profundidade, lirismo e uma conexão visceral com a Amazônia. Este livro, 'Um pouco além do Arquipélago onde acho que Deus mora', é um testamento dessa essência. Ele próprio o descreveu como um 'apanhado de escritos' onde brota uma 'essência mística', uma 'constelação de palavras estreladas'.

O título já nos convida a uma jornada. O arquipélago, talvez a vida fragmentada, e o 'além', a busca pelo sagrado, pelo inatingível, pelo divino que se revela nos pequenos milagres do cotidiano. É um livro que nos guia pelo 'canto do pássaro prateado', uma metáfora luminosa para a liberdade, a poesia e a alma que alça voo, sem se prender às amarras do chumbo.

Aqui, Fernando nos presenteia com a amplitude de seu talento: prosa poética que nos embala, poemas que tocam a alma, e contos e crônicas que nos fazem refletir sobre a condição humana.

Ele nos leva a uma geografia pessoal, onde a 'Samaumeira' é uma mãe sagrada, onde os mitos de 'Ianejar' e as lendas da 'Sucuri' se entrelaçam com a realidade, e onde a própria Macapá, com seus '200 mil açoites', texto que publicou em 04 de fevereiro de 2022, em celebração aos 265º aniversário de Macapá, onde, segundo ele, aproximadamente 200 mil marés do Rio Amazonas lhe fustigaram a orla desde a fundação até aquela data, contando parte dos anos bissextos, se revela em sua resiliência e beleza.

Temas e a Relevância da Obra

Nestas páginas, encontramos a memória que 'nada secará', a reflexão sobre a vida e a morte, a crítica social sutil em 'O Peixe', e a celebração do amor como uma energia que 'transforma as leis do tempo em furtivas estrelas'. Fernando Canto nos convida a olhar para a nossa própria existência, para as forças que nos moldam, para a beleza da natureza e para a complexidade das relações humanas.

É uma obra que nos lembra da importância de 'desvendar' nossa terra, nossos sonhos, nossa alma, como ele tão poeticamente expressou em 'Urdidura (Enigma Amapá)'. É um convite a romper silêncios, a buscar a liberdade e a encontrar o sagrado em cada detalhe, em cada 'bilha que nos sacia a sede’.

 A emoção e o convite final

Assumir a tarefa de apresentar uma obra póstuma de Fernando Canto, um escritor de tamanha envergadura e sensibilidade, representou um desafio imenso. A ausência de sua voz para me guiar e a responsabilidade de honrar seu legado trouxeram consigo uma mistura de apreensão e reverência. Contudo, a profunda admiração por sua arte e a convicção na perenidade de sua escrita foram a força motriz que me impulsionou a este ato de coragem e ousadia.

Como bem pontua Yurgel Caldas, na apresentação, Fernando deixou o livro pronto, encadernado em espiral, coube apenas a tarefa de organizar o projeto gráfico com Silvio e Lulih, que foram especialmente profissionais, muito acolhedores e nos brindaram com este maravilhoso exemplar.

Fernando deixou explicito que o prefácio seria escrito pelo Professor Paulo Guerra, e assim foi. Explicitou dois amigos a quem ele queria dedicar poemas: Fernando Bedran e Carlos Lobato, e assim foi. Procurei deixar o projeto o mais próximo possível da concepção de Fernando Canto.

É com enorme emoção que entrego estas palavras e, mais importante, este livro ao público. Que cada página seja um novo encontro com a genialidade de Fernando Canto. Que sua voz continue a ressoar em nossos corações e em nossas mentes, e que 'Um pouco além do Arquipélago onde acho que Deus mora' seja um farol a nos guiar na dança das forças da vida.

Muito obrigada.