segunda-feira, 27 de setembro de 2010

SAHARESCO

Alcy Araujo (1924-1989)

Primeiramente apunhalei um infiel, desses cães mentirosos a quem chamam legionários e que, dizem, trocam de nome quando entram para a Legião. Isto aconteceu logo após as orações da manhã.
Depois comi tâmaras e tomei água fresca no oásis onde estava acampada a caravana de Bem Yusuf.
Então partir, eu e minha camela Yasmin, ao encontro do fazedor de tendas. Um bom sujeito, o Omar.
Tratamos de negócios e conversamos muito após as orações da tarde, à entrada de sua tenda, sob as estrelas. Omar falou que não temia a justiça de Deus porque sempre fora um homem sincero e mostrou – se um grande apreciador do vinho.
Segundo sua opinião, se os que gostam de vinho são danados no inferno, é possível que o dito esteja lotado de seus apreciadores.
Falou também, que a vida pouco lhe interessava, dizendo que havia sido bem lhe deram sem o consultar e que restituiria com indiferença, a qualquer momento.
Por fim, caímos em silêncio, bêbados de vinho, poesia e estrelas.
Ao despedir-me, ganhei um frasco de óleo aromático e um punhal com cabo de marfim. Parti. Eu, a minha camela, o frasco, o punhal e a poesia de Omar, com destino à minha tribo itinerante.
Antes, ia esquecendo, encontrei o Simum. Vento dos infernos, quente como o diabo. Yasmim deitou – se e eu fiquei escondido atrás dela até passar a tempestade. Ao encontrar minha tribo, a Bem Amada tinha sido vendida a Bem Amed, o mercador.
Só restava comer tâmaras ou beber vinho. Bebi vinho. Alah perdoará a minha bebedeira.
Foi quando chegou Sheerazade, contando histórias para que eu esquecesse a Bem Amada. Ninguém como ela para contar histórias. Acontece que  papai, beduíno velho, calejado por muitas andanças, não foi na conversa e saiu à procura  dos seus olhos feitos de noite, de oásis, revistando caravanas, orando em todas as mesquitas, comparecendo a todas as feiras de escravos, violando haréns. E nada. Viajei para o Norte e os esquimós não souberam a minha linguagem; desci para a Antártida e os pingüins não me compreenderam; segui a rota de Marco Pólo para o Oriente e a de Colombo para o Ocidente; dobrei dezoito vezes o cabo da Boa Esperança; subi de Convair até encontrar a habitação do Anjo e desci com o Capitão  Nemo até o fundo dos sete mares.
Finalmente, acordei cristão, na Latitude Zero, com um amargo danado de cachaça na boca ressequida.
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Do livro Autogeografia, lançado em 1965.

Alcy Araujo, no prefácio de Autogeografia
Este é um livro no qual se flagram acidentes do mim mesmo. Alinhei palavras unicamente para colocar no quadro da minha geografia este ou aquele cais, os caminhos, os abismos, os desertos, as latitudes em que estacionei e vivi no minuto preciso para dizer o que está dito. Palavras antigas que o poeta (fácil é perceber) balbuciou na juventude e expressões de que está falando nesta hora, sem pensar no amanhã, sem nem te ligo para a perenidade do verso ou a uma possível evolução que a experiência tenha vegetativamente produzido.

Pretendi, assim, apenas ser terno, dentro de um mundo pleno de revolta, de angústias, desencantos. Não desejei mais, nem mais poderia.

Estou nu, como o sou diante do meu Anjo, desde a minha inauguração até o agora. Amanhã, talvez, terei mudado. Metamorfose ou metempsicose. Mas aí estas palavras e este carinho terão passado, por ser só este pouco o muito pouco que posso oferecer:

O meu humílimo gesto de poeta.

Publicado no jornal Correio do Amapá de domingo, 27.09.10 - Caderno Batuque

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