segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O CONVENCIMENTO, Cesar Bernardo

150820091554 Parabéns a Cesar Bernardo, jornalista e escritor que aniverariou no dia 15/01

O homem passou ao largo do terreno desocupado que se situava muito bem em relação aos melhores endereços da cidade. As certezas que lhe ocorrem são a do abandono e a de que invadiria aquele pedaço de terra para proveito seu e da sua família numerosa.
Adiante desceu do ônibus, retornou uns duzentos metros e se deu a melhor examinar o objeto das suas recentes intenções, demorando-se uns dez ou quinze minutos nessa tarefa. Primeiro caminhou devagar na parte frontal do terreno que chegava até o meio fio lateral direito da estrada asfaltada, com o que, na verdade mediu-o contando as passadas regulares, cada uma contando cerca de noventa centímetros. Também avaliou o barulho dos carros passando a todo instante sempre em alta velocidade.

Atento para não perder a conta foi à linha de fundo do terreno marcando em voz alta as passadas, ao mesmo tempo em que memorizava os pontos e a posição da tubulação de água encanada que aflorava de quando em vez. Avaliava a distribuição da vizinhança da direita e avançava; chegando ao fundo deteve-se um pouco mais para medir com os olhos a imensidão da área, fez contas mentais e concluiu que toda extensão do terreno chegaria facilmente a dois hectares de terra nua.

A seguir tomou um punhado de terra em suas mãos, esboroou-a primeiro e depois deixou vazar por entre os dedos como se fosse uma criança brincando de fazer poeira ao vento. Outra vez se abaixou para tomar novo punhado em suas mãos, cuspiu-a seguidamente, amassou-a até torná-la uma bolinha de barro, que seguiu moldando e amassando entre os dedos. Daí, pôs-se a fazer mesuras com essa bolinha de barro amassado como se quisesse jogá-la ao ar com gestos ensaiados, exasperando-se à medida que não conseguia fazê-la despregar-se da palma da mão com safanões cadenciados.

Com a ajuda dos dedos desfez-se da bolinha de terra atirando-a a pequena distância. Depois a pisoteou até transformá-la numa lâmina que se colou à sola do calçado lhe colocando no rosto um sorriso largo. Caminhou devagar para fora da área e sem olhar para trás desapareceu entre os demais usuários da estrada.

O “teste” da poeira e depois o da bolinha de barro pegajoso tinha indicado terra muito boa para a agricultura, esse conhecimento ele trazia como cultura ancestral infalível. Era plantar e colher. Convencido dessa forma foi-se o tal homem.

Dias depois surgiu do nada uma invasão bem ali, como se fora uma variável cotidiana desse fenômeno da expansão urbana. A aparência de pobreza é a marca comum nas pessoas que formam esses pelotões de invasores urbanos, em contraste com o grau de organização e força institucional que as invasões urbanas apresentam.

Em cada uma delas existe comando, mas não se percebe a hierarquia entre os líderes, embora seja visível o apoio logístico e doutrinário recebido. Esses líderes animam a resistência, o apoio logístico garante-lhes a longevidade no posto, a doutrinação coloca trechos constitucionais lavrados da legislação específica na boca de cada um dos invasores. Daí em diante o ato de invadir terras urbanas passa a ser um movimento.

O tal homem era muito ágil e sábio, pois no dia seguinte já exibia a sua casa pronta e instalada ao fundo do terreno, com o quintal já pontilhado aqui e ali por coqueiros, bananeiras, laranjeiras e limoeiros, árvores de adorno, no geral todas já no porte de arvoretas de metro e meio. O sol ainda não estava alto e ele já lavrava a terra nas entrelinhas do plantio permanente, com o fito de ali espalhar alfaces, cebolinha, coentro, feijão de corda e batata- doce.

Aos outros seus companheiros coube tarefa quase igual, em lotes que eram menores que o seu, formando um conjunto de aspecto rural lembrando um milagre irrefutável porque ao final daquele mesmo período agrícola já sairia dali grande volume de frutas, legumes, verduras e ovos, frangos, patos e leitões. No dia anterior tudo lá era baldio, um retrato heriveltiano[1] do abandono programado e combinado com a especulação imobiliária urbano palaciana. Tão de repente quanto o surgimento dos invasores brotou a polícia, não se sabe de onde exatamente surgiu aquela centena de soldados estranhamente desarmados.

O comandante da soldadesca entrou sozinho na área, dirigiu-se ao líder dos invasores - o tal homem - e falaram-se por uns quatro ou cinco minutos. Não gesticularam forte e nem alteraram o tom da voz; olhavam especialmente atentos para um enorme caminhão que manobrava para posicionar-se estrategicamente num ponto ao fundo da área invadida, quase junto à parede da casa recém construída.

Estabelecido o entendimento entre ambos, o comandante pediu o megafone e ergueu o polegar da mão esquerda mostrando-o à tropa que imediatamente se movimentou cercando literalmente toda a área. O polegar erguido era um código: duas colunas se formaram de braços dados, dispondo fileiras de soldados frente a frente a pessoas no interior da invasão e populares que se aglomeravam ao derredor. Assim, bunda a bunda, costa a costa a soldadesca desarmada pôde ver a cara de espanto dos populares, quando gentilmente o próprio líder dos invasores empunhou o megafone e ordenou que todos os seus liderados se recolhessem ao interior dos seus barracos e permanecessem lá com os seus aparelhos de televisão ligados em qualquer canal.

Estrategicamente o comandante empurrou devagar o líder em direção ao seu próprio barraco para que também ele cumprisse a ordem. Estudadamente fingiu esquecer de resgatar o megafone de suas mãos, dirigindo-se a passos ensaiados da cadência militar ao caminhão tipo baú, pintado nas cores da corporação e estrategicamente ocupado por policiais militares devidamente identificados pelo fardamento que usavam.

Acionados por comandos eletrônicos autorizados e ordenados pelo comandante da operação, foram surgindo no teto e nas laterais do veículo instrumentos especiais de uso em filmagens e transmissões televisivas. Em segundos, em todas as telas dos aparelhos de televisão dos invasores e da vizinhança num raio de até quinhentos metros, estavam as imagens mostrando o massacre de agricultores sem-terra ocorrido recentemente no Norte do país. Detalhes do massacre iam passando lentamente: ora com um policial militar atirando friamente contra os lavradores, ora com lavradores caindo mortos ao chão, ora mães, esposas e filhos chorando desesperadamente sobre corpos caídos debaixo de insistente tiroteio sobrecabeça. Depois de exatos trinta minutos de exibição as imagens desapareceram das telas, o caminhão recolheu os seus tentáculos eletrônicos, o cerco policial se desfez e o silêncio ficou na área da invasão até a noite.

No dia seguinte, quando a cidade reacordou para a rotina urbana, na mesma área nada e nem ninguém se viu. Tudo era exatamente igual ao que foi há três dias antes: o que se via eram buracos, como covas, que receberam os pés direitos dos barracos e as culturas “permanentes”, com as quais aqueles homens e mulheres toscos pretenderam oferecer benfeitorias à nova “propriedade”. Além dos buracos (como covas no chão), abertos à espera de cadáveres, também ficou alhures num ponto qualquer da área o megafone do comandante.

Que destino tomou o tal homem, os seus companheiros e o comandante policial nunca foi possível precisar. O certo é que no endereço daquela invasão moram hoje políticos importantes, pastores evangélicos, oficiais militares e muitos, muitos homens de negócios bem sucedidos.

Lá ninguém sabe dessa história de invasão e desocupação, literalmente ninguém. Por isso lhe contei este conto.

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