terça-feira, 8 de abril de 2014

SOberba ORAção dos SERes da FLOResta parA IANEJAR, o heRÓI

Texto de Fernando Canto*

Eu te agradeço Ianejar pelo teu sangue de borboleta avoante. Por seres  a distorção da história fútil do homem branco que aqui chegou fincando sobre a terra seus valores.
Ianejar, eu te agradeço pelo fogo - o cataclismo devastador - mais que necessário para proteger teu povo do intrépido inimigo e de suas armas cuspidoras do brilho do infortúnio.
Todos os dias quando o sol se agiganta como um raivoso pai lá no horizonte, eu penso que tu estavas certo em provocar a fuga-exílio do teu povo sofredor por dentro de uma casa-argila, onde tantos faleceram de calor e de frio.
E era Mairi que flutuava pelas margens do Grande Paraná à deriva e à procura de uma terra em que houvesse paz.
Eu te agradeço, Ianejar, por conduzires com grandeza a dignidade do povo Waiãmpi na sua memória ímpar, por enormes espirais que o nosso povo representa em ciclos míticos.
Sei que foi preciso destruir uma parte da Floresta-Mãe para depois fazer a roça e ver medrar a folha verde dos campos.
E mesmo antropizada como hoje diz o karaiko /o homem branco/ a floresta é a tua dádiva. É a cornucópia do nosso cabeludo povo, dada a nós por um demônio manso que hoje deita na tua rede no teu céu, lá onde estão as borboletas e a estrela em que tu te tornaste quando saíste pelo buraco do final da Terra.

Eu te agradeço, Ianejar, eu te agradeço.

Publicado no livro Equinocio - Textuário do Meio do Munto. Ed. Paka-tatu. Belém-PA, 2004;
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