terça-feira, 5 de outubro de 2010

COMO VIVIAM NOSSOS ANTEPASSADOS NO BAILIQUE E OUTRAS DUREZAS

Decleoma Lobato*

Decleoma Dona Maria, desde quando vocês moram neste lugar? Essa pergunta quem fez foi a dona Domingas. E foi muito boa porque aí minha avó pegou uma cadeira, sentou e começou a contar coisas de outras épocas. Ela disse que só passou a morar nesse terreno depois que casou com o meu avô. Ele já vivia lá. Antes essas terras pertenciam a um grande comerciante que existiu na região, o seu Hermógenes. Depois que os filhos desse senhor cresceram e foram morar em Belém e a esposa morreu, ele resolveu ir viver junto dos filhos e vendeu as terras. O pai do meu avô comprou uma pequena parte.

Nessa época eles viviam de cortar seringa, juntar caroço de muru-murú, castanha de andiroba, ucuúba e de fazer pequenas roças onde plantavam milho, banana, mandioca, arroz. Eles caçavam muito, jacurarú, jacuruxi, sucurijú, jibóia, para vender o couro. Matavam os animais, tiravam a pele, esticavam com tala e quando secava eles vendiam. O pai do meu avô também era carpinteiro naval. Ele e os filhos, que ele mesmo ensinava, trabalhavam na construção e calafeto de embarcação.

O trabalho de coleta das sementes era feito na maior parte pelas mulheres e crianças, que geralmente, coletavam durante a semana e no sábado iam entregar no comércio, recebendo em troca, café, açúcar, sabão e outros produtos.

Depois do casamento, minha avó veio morar com a família de seu esposo e depois de alguns meses o casal se mudou para uma casa própria construída ao lado. Lá nasceu a minha mãe e um irmão, já falecido, meu tio Júlio, pai da minha prima Iraci.

Com os filhos dos meus avós aconteceu o mesmo que acontece com a maioria, no interior. Cresceram e tiveram que mudar para a cidade para poder continuar estudando. Parece que meu tio Júlio se alistou no Exército, porque tem uma estória que diz que ele participou de uma guerra no Estado do Pará, parece que foi numa guerra que ocorreu em Marabá, no sul daquele Estado. Contam que meu avô fez uma promessa para São Benedito, aí meu tio voltou. Ele veio baleado, mas voltou. Meu avô mandou construir essa capela. Todos os anos eles festejam São Benedito.

Dentro da capela tem muitas imagens de santos. Algumas são de madeira, outras são de argila ou de gesso. Algumas estão bem conservadas, outras estão mais estragadas, mas todas a minha avó cuida com muito zelo. Toda semana ela troca as roupas dos santos. E todos os anos, na época da festa de São Benedito, eles recebem roupas novas, que geralmente são doadas por pessoas da comunidade como pagamento de graças alcançadas. Também fitas de várias cores são doadas e amarradas nas imagens, como pagamento de promessas.

A festa do padroeiro é um acontecimento grandioso. Durante nove dias acontecem ladainhas às noites. No primeiro dia é levantado o mastro do santo e no último dia acontece a derrubada, uma pequena procissão e depois da ladainha, um baile. Durante o baile são leiloadas as ofertas dos devotos, frutas, animais, utensílios agrícolas e de cozinha, doces, etc.

Minha avó falou que esses santos são herança de família. Ela é muito religiosa, e conta que esteve doente e fez uma promessa aos santos, prometeu que se recupe

rasse a saúde, trabalharia durante o resto de sua vida com gosto e satisfação para cuidar deles e da igreja. (Entre mãe-do-mato, cobra grande, botos e “mocós” – Uma Aventura no Bailique. S.ed. Macapá, 2005)________

Decleoma Lobato Pereira é historiadora e escritora.

Publicado no jornal “ Correio do Amapá de domingo, 03.10.10

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