segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Macapá, Cidade de Sons e Sonhos

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angela nunes Vem de longe, muito longe, do tempo dos encantados e pureza, os sons da floresta.

Na aldeia Tucuju, em noites de lua – cheia ou nova, pouco importa! – o ritual espraiava ritmos pela noite.

Louvores ou temores chegaram até nós através dos maracás e flautas. E o canto indígena, que marcava a cadência dos pés, perpetuou-se na memória coletiva.

Ladainha e festa de santo chegaram pelo rio. Novos sons, nova gente. O branco e sua cultura fincaram pé na floresta. Balbuciava uma cidade...

Pele negra, força bruta. O terror e a ternura manifestaram-se nos tambores, nos batuques. A distante África não ficava tão distante assim quando os corpos explodiam na sensualidade da dança. Os deuses chegavam mais perto chegavam mais perto e a tristeza era levada mar-abaixo ou rio-acima. Da noite ao dia, do ontem ao hoje, a floresta e as pedras do forte registraram tudo.

Três culturas ímpares às margens do mesmo rio... O Amazonas piscou um olho cúmplice e a proximidade, a gentileza, o calor... Deu no que deu: do caldeirão genético saltaram caboclos, cafuzos um tanto confusos com a mistura, mulatos... brasileiros!

O 4 de fevereiro de 1758 marcou o assentamento definitivo – registrava-se a cidade: MACAPÁ, estância das macabas, terra do sol e da chuva, de vegetação exuberante, de gente meiga e tenaz.

Da tribo Tucuju, a primeira a habitar estas paragens, restou o espírito guerreiro. Dos brancos, a ousadia, o gosto pelo novo. Dos negros, a força da raça. De todos eles – os sons e a capacidade de sonhar.

Macapá é um relicário de sons. Os ritmos da história estão no ar, nas árvores, na terra batida, nas pedras, no rugido da pororoca, no canto dos pássaros.

A gente sensível desta terra recupera, hoje, o que sempre esteve dentro dela. Capturados em CDs, sons explodem em múltiplos sonhos. Certamente, não os mesmos de espanhóis, franceses ou portugueses! Mas os eternos sonhos de construção de uma sociedade digna, onde todos possam crescer e amar.

Publicado no Batuque, caderno de cultura do Jornal Correio do Amapá de domingo, 25/10/10.

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