terça-feira, 5 de outubro de 2010

Val Milhomen, o poeta do formigueiro

Por Renato Flecha

Val Milhomem_ A música é, com toda certeza, a arte mais sublime, pelos menos para mim. Hoje falaremos de um dos grandes letristas de nossa terra, Val Milhomen. Compositor amapaense, aos 19 anos foi um dos fundadores do grupo “Nós”, que participou de festivais de música nos idos dos anos 80. As canções eram recheadas de expressões e orgulho e consciência regional. Uma geração que consolidou a base do que hoje chamamos de Música Popular Amapaense (MPA).

O compositor foi premiado pela primeira vez em 1983, no 3º Festival do SESC Amapá. Sua recompensa foi a gravação de um compacto simples, o saudoso e Cult disco de vinil. Em 1992, Val Milhomen gravou o seu primeiro disco, “Formigueiro”, onde homenageou a comunidade homônima, localizada no centro da cidade velha Macapá, atrás da Igreja de São José, onde o compositor cresceu.

Milhomen também foi um dos fundadores do Movimento Costa Norte, que fortaleceu a música regional e chamou a atenção do Brasil para a musicalidade amapaense. O compositor teve seu trabalho registrado na primeira coletânea do movimento, juntamente com os cantores Amadeu Cavalcante, Zé Miguel e Osmar Júnior. Além destes, outro grande parceiro seu é o cantor e compositor paraense, Joãozinho Gomes.

Em setembro de 1996, lançou o CD Planeta Amapari, indicado ao Prêmio Sharp no ano seguinte. Só o fato de concorrer a uma premiação deste porte, é motivo de orgulho para os filhos desta terra. Em 1997 com a adesão de Amadeu Cavalcante, foi criado o grupo Senzalas, que chegou a fazer shows Brasil a fora.

Em 2005 Val Milhomem gravou o CD Constelação de Parentes em parceria com Joãozinho Gomes, lançado em 2008. No mesmo ano, classificou a música Barco Negreiro, no I Festival A Nova Música do Brasil, da TV Cultura, defendida pelo grupo Senzalas. Seu último trabalho foi o CD “Tambores do meio do mundo”, com o grupo Senzalas. Para 2011, Milhomen tem o projeto de lançar um CD autoral com músicas gravadas por outros intérpretes e algumas inéditas. De acordo com o artista, os ritmos amapaenses Marabaixo e o Batuque lhe inspiram e norteiam seu trabalho.

“Sempre pensei em criar algo que pudesse ser identificado como música amapaense. O marabaixo e o batuque sempre estiveram envoltos em preconceito. Daí minha identificação com estes ritmos. Procurei utilizar o marabaixo e o batuque como base de minhas músicas na expectativa de criar algo novo, algo que popularize nossa música de raiz e caia no gosto do Brasil e do Mundo. Por isso vivo buscando, cada vez mais, novas experimentações”, disse Val.

Nossa música é pouco divulgada, por isso “é necessário buscar novas formas de divulgação para que música amapaense chegue aos ouvidos da juventude, pois os jovens sempre são sedentos por novidades”, continua Milhomen.

Das mais de 500 composições registradas em seu repertório, Val destacou a música “Formigueiro” como aquela que ainda hoje lhe traz um grande prazer de ouvir, por ter sido concebida em seu local de nascimento e fala de sua raiz.

Por sua história e contribuição para a música amapaense, Val Milhomen é respeitado e festejado em nosso Estado. Para um artista do Norte, isso é no mínimo fantástico. Pois, como disse Humberto Gessinger, estamos “longe demais das capitais”

Formigueiro

          Val Milhomen

Amanheceu vento que me embala

Sou formiga que trabalha

Sou de fogo, sim

O sol nasceu bateu na minha cara

Não espero a cigarra

Vir cantar pra mim

Vou fazendo o meu destino

Eu não paro não senhor

O meu reino é um ninho

Onde não impera a dor

Vou atravessando o tempo

Sem temer o temporal

São José tá sempre atento

No portão do meu quintal

Meu coração é um formigueiro

É moleque é corriqueiro

É tempero de sabor

Um batuqueiro que não cansa de folia

Afluente de alegria

É um reino sedutor

Publicado no jornal “ Correio do Amapá de domingo, 03.10.10

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