segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Quase Diário, um poema de Luiz Jorge

Oavesso do espantalho

Éramos muito jovens para fazer sexo.

Então, de mãos dadas e Havaianas trocadas,

Fomos aprender inglês.

Gastamos momentos de uma noite escura

“a ver a lua” beber água do rio.

Voltamos para casa molhados de suor,

chuva e saliva como em um frevo.

Eu vim pulando sobre a perna direita

fazendo “piruetas”.

Ela veio cabisbaixa pensando em usa Rimel

e diminuir a silhueta;

Eu pensei em Fevereiro ir morar no Rio

de Janeiro.

Ela queria ser aprovada na prova de

Admissão para a Escola Normal de Macapá.

Depois, ficamos grávidos.

Ela ganhou gêmeos.

Dois dias depois, eu ganhei um violão.

Obturei um dente que doeu.

Comecei a usar óculos e pisar errado nos

degraus corretos.

Um dia eu mudei, fui de Varig, achando

perto o imaginário.

Completei dezenas de aniversários.

As crianças já devem parecer com humanos.

Rasgados planos e panos.

Surtei casando avexadamente.

Perdi seu retrato no cinema.

Entre as coxas de Helena.

Que até o filme terminar, nunca mais

Largou de mim.

Hoje eu volto ávido.

Extremamente pálido. Já avô.

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Luiz Jorge Ferreira é paraense, médico e escritor. Tem fortes ligações com Macapá, onde passou a infância e parte da adolescência.

Este é o sexto livro de poesia do autor, radicado em São Paulo. Antes dele, foram publicados: Berro Verde, Tempos do Meu Tempo, Cão Vadio, Beco das Araras e Thyabum.

O Avesso do Espantalho mostra a sua poesia evoluindo consigo e em si. Espelhada com o que lhe cerca, incomoda, soma e subtrai. (Ed. Scortecci. São Paulo, 2010)

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